sábado, agosto 14, 2010

“A Origem” em mim / My perceptions about “Inception”

Ainda estou sob os efeitos de “A Origem”, que assisti ontem. Saí do filme com a mente dando voltas, fazendo muitas conexões, acessando registros antigos. A subjetividade da realidade, como a percebo, sempre atraiu meus pensamentos. Pensar que a pequena parte do que percebo – sim, porque acredito que conhecemos muito pouco das dimensões do mundo – é diferente do que você percebe parece alucinação. E a forma como interagimos co-criando nossas percepções é ainda mais louco.
O filme fala sobre isso. Chamam de sonho aquilo que, de tão real, é capaz de mudar o curso do futuro. Meu filho mais velho, minha companhia nessa jornada, traduziu o filme pro irmão mais novo: “é um sonho, dentro de um sonho, dentro de um sonho, dentro de um sonho. Para voltar, as pessoas acordam de um sonho, em outro sonho, em outro sonho...” Sua descrição, simples e precisa, me fez lembrar daquele efeito dominó e, indo mais além, das interações que fazemos na vida.
Num momento em que corro o risco de me ocupar exclusivamente, de questões objetivas que me mobilizam muito, como a mudança do local de trabalho, a venda da casa, o equilíbrio do meu orçamento doméstico, percebo que tudo isso é nada diante do Universo de que faço parte.
Li pouco a respeito da Física Quântica, mas, por esse pequeno recorte, vejo que a ciência tem comprovado o quanto criamos o que chamamos de realidade. Não sei se ela já deu conta do quanto esse trabalho é feito em conjunto, com ou sem consciência, a partir da interação a que estamos sujeitos por fazermos parte de um imenso organismo vivo em que cada um de nós tem papel fundamental. Parece uma viagem? Mas é a minha crença e, pra mim, o que explica a minha experiência de realidade.
Filmes como “A Origem” começam a popularizar essa discussão, antes dada a alucinados, esotéricos, cientistas ousados. Durante o filme, fui fazendo tantas conexões que acabei tuitando algumas delas. Entre meus “hiperlinks” mentais, lembrei de “O Pêndulo do Foucault”, de Umberto Eco, que li há mais de 20 anos: ficção com proposta de reflexão sobre o que é e como se constrói o real, no mundo dito real. Lembrei também da “Profecia Celestina” (livro e filme), de “Quem somos nós”, e de tantos outros artigos e conversas sobre esse tema, que já atrai a atenção de muita gente.
Não é muito diferente dos conceitos que permearam “Avatar”, que se vale de uma história de amor romântico, para semear boas ideias. Pra mim, está tudo conectado. E, como diz o galã de “A Origem”, Leonardo Di Caprio: “Uma simples ideia da mente humana pode construir cidades. Uma ideia pode transformar o mundo e quebrar todas as regras.”

Um comentário:

Guilherme Scalzilli disse...

“A origem”

Mesmo que levássemos em conta apenas a superfície imediata do entretenimento, o filme superaria a média industrial hollywoodiana. Nem tanto por mérito do jovem e talentoso Cristopher Nolan, mas graças ao arrojo técnico empregado para contar sua história mirabolante. Os efeitos visuais atingem um grau de ilusionismo assombroso. A edição é exemplar. Prêmios técnicos não faltarão ao filme.
Há, no entanto, um pequeno detalhe.
A música “Je ne regrette rien”, cantada por Edith Piaf, surge freqüentemente, servindo a necessidades dramáticas. Os protagonistas a utilizam como uma espécie de gatilho para retornar das viagens pelos sonhos. Depois que os inconscientes foram devidamente treinados, basta-lhes ouvi-la e todos despertam imediatamente, salvando-se de apuros eventuais.
Mas trata-se também de uma referência exterior ao próprio filme: a canção desloca nosso raciocínio da personagem-chave “Mal” para sua intérprete, a francesa Marion Cotillard. Pois é impossível não lembrar a própria Cotillard no papel de Edith Piaf, cantando exatamente “Je ne regrette rien”.
Enquanto “Mal” só existe no mundo onírico, a identificação da atriz com seus trabalhos anteriores faz sentido apenas no plano dos espectadores conscientes. A citação extrai os personagens de suas imersões pela fantasia e ao mesmo tempo nos retira de “A origem” (ou do “sonho” representado pelo filme) para devolver-nos à realidade exterior.
Se qualquer outra canção preservasse o mesmo sentido conveniente à trama (“não lamento nada”), as lucubrações acima virariam delírios absurdos. Mas a escolha dessa música, entre inúmeras possíveis, é precisa e enriquecedora demais para soar casual. E assim descobrimos a essência do código metalingüístico em sua plena realização.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com/

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