sexta-feira, dezembro 31, 2010

Obrigada!

Hoje só quero agradecer a cada uma das pessoas que passaram pelo blog Coisas de Valor durante este ano. Não sei se alguém pode imaginar o que esse espaço na rede significou para mim, mas comemorar o primeiro ano de postagens regulares foi uma conquista muito além dos números. Em primeiro lugar, resgatei o prazer de escrever e aprendi a me reconhecer como uma pessoa que escreve (ainda não ouso a palavra escritora) além dos textos jornalísticos e profissionais.
Com certeza, a cada texto, ganhei novos insights e elaborações sobre a vida, mas isso é nada perto da compreensão dos ganhos advindos do pensar em grupo e do compartilhar, vislumbrando novas e melhores realidades. Através da escrita, alcancei pessoas que se tornaram leitores e amigos, a quem, de outra forma, me seria impossível alcançar. Tive minha vida modificada e modifiquei outras tantas, algumas vezes, quando dialogava em comentários, e-mails e tweets sobre os textos publicados. Meus posts misturaram-se a minha vida e o resultado foi um viver mais pleno e feliz.
Sou muito grata a cada pessoa com quem interagi, num fluxo amoroso e positivo. Encerro esse ano com um domínio próprio (www.coisasdevalor.com.br), para onde migrarei em breve e com a promessa linda de uma leitora de reunir os textos em um e-book, que, quiçá, sairá também em papel! A intenção é alcançar mais gente e interagir com um número cada vez maior de pessoas, animada pela crença de que. quanto mais nos transformamos e nos conhecemos, mais contribuímos para um Universo melhor.
Feliz 2011!

terça-feira, dezembro 28, 2010

A boa energia que chega de todos os lugares

Todos os anos escrevo uma mensagem pessoal para desejar Boas Festas aos amigos. Meu objetivo é que essa mensagem possa alcançar cada um, apesar de ser enviada coletivamente, e que possa estar carregada da minha própria energia. É uma forma de personalizar o envio automático e mecânico, bem adequado a nossa falta de tempo. Pensei bastante e, pela primeira vez, anexei à minha mensagem o cartão da empresa. O fato, para mim, foi significativo, visto que trabalhei durante todo o ano na construção de uma “Mônica” mais coerente e integrada em todos os seus papéis.
Mas o que mais me surpreendeu foi a forma como a mensagem alcançou pessoas distantes e o efeito que suas respostas, agradecimento e votos de sucesso tiveram em mim. De repente, visualizei minha vida como uma partida esportiva com uma grande torcida na arquibancada. Isso me encheu de boas energias e me fez sorrir a cada mensagem. Algumas eram muito breves, mas isso não impedia que carregassem consigo o sentimento do amigo fisicamente distante.
Me surpreendi e gostei da troca de energias via e-mail. Nem sempre estive aberta à tamanha troca de vibrações. Os sinais, as dádivas, o melhor da vida, o amor, entre tantas outras coisas, espalham-se por todos os lugares e chegam a todos, sem exceção, pelos mais variados canais. Pena que nem sempre fazemos a nossa parte. Muitas vezes, nos fechamos na correria cotidiana e nas ideias e expectativas que trazemos conosco, sem percebermos pequenas coisas, como um simples e-mail com a palavra “Obrigado!”, podem fazer a diferença no nosso dia e, às vezes, na nossa vida.
A chuva que cai inesperadamente durante o dia, um aperto de mão, um olhar, uma mensagem no celular, um toque, um sorriso, uma flor que nasce, uma foto no Facebook e mais um sem fim de singelos acontecimentos podem trazer para nossa vida uma energia especial. Tudo o que precisamos é ficar atentos e acreditar que aquele fato aconteceu especialmente para nós. Vamos aproveitar?

domingo, dezembro 26, 2010

Espelho, espelho meu...

“Queria ter a força e a coragem que você tem.” Escutei a frase de uma amiga, porém, mais do que me lisonjear, a afirmação trouxe-me preocupação. Está certo, acho-me sim forte e corajosa (e isso, pra mim, é uma conquista comemorada diariamente), mas será que ela acha mesmo que eu sou assim o tempo todo? Será que ela não percebe o medo, as inseguranças e todos os outros fantasmas que enfrento para acessar a minha força interior? Tentei lhe dizer: “essa força a que você se refere está dentro de você também, acredite”. Ela balançou a cabeça negativamente: “Não sou como você, não tenho essa coragem”.
Diante disso, não adiantava continuar com as minhas afirmações a respeito do que ela tem ou não dentro dela. Sei bem dos processos para desenvolvimento dessa crença e sei que ele não se dá de fora pra dentro. Deixei-a falar, mas desejei que conhecendo minhas dificuldades e vendo o caminho que percorri ela pudesse experimentar caminhar por ela mesma. A dificuldade dela, no entanto, me fez perceber o quanto estamos cercados de oportunidades de aprendizagem, felicidade e evolução. Somos espelhos uns dos outros e estava ali, na minha frente, uma parte de mim que me permitia acessar alguns de meus temores, enfrentando-os e retornando uma imagem mais saudável para que minha amiga pudesse reconhecer também em mim uma parte dela, mais confiante.
Para simplificar esse conceito, basta pensar em um espelho. Quando vejo a minha imagem refletida nele, estabeleço minhas crenças com base em percepções pessoais. Posso me achar gorda e feia, ou dona de um bom corpo e bonita. Serei da forma como me vejo. Esta será minha verdade. Quando percebo minha amiga como uma imagem de mim, tal como a que vejo no espelho, enxergo com os seus olhos a fraqueza e falta de coragem. Se ela é, também, a minha imagem, é uma parte do que existe em mim. Aceitando isso, posso me modificar, buscando em mim uma percepção diferente. Ao se deparar com a minha imagem, se a reconhece como parte de si mesma, minha amiga pode transformar o que vê em realidade para si, acessando a sua própria força.
Parece confuso? Falo por mim e digo que tenho experimentado esse movimento em minha vida. Quando algo do outro chama a minha atenção eu “chego mais perto” e busco que parte de mim está sendo refletida naquele instante. Foi assim que descobri em mim, há alguns dias, uma resistência a bons e novos relacionamentos. A partir do que experimentei em outra pessoa pude acessar uma emoção que estava bem escondida e, nesse caso, vendo o outro como meu espelho, tive a oportunidade de criar uma nova realidade para mim.
E assim sigo: atento ao que me incomoda no outro, porque certamente, é meu reflexo. E, já que não posso modificar ninguém, concentro-me em mim mesma, com a certeza de que, pelo menos, faço a minha parte.

sábado, dezembro 25, 2010

Pra dentro e pra fora...

Andei um pouco afastada da blogosfera. Deixei de ler os blogs dos amigos e mergulhei em mim. Dei-me conta deste movimento, censurei-me a conduta e reuni meus “eus” para uma conversa. Que movimento é esse? Por que deixar de lado contatos que há algumas semanas eram imprescindíveis? A resposta veio rápido: medo. Interagir com o outro costuma levar a lugares onde nunca estivemos, e, às vezes, preferimos nos resguardar, esquecendo que nesses encontros estão grandes oportunidades de autoconhecimento, evolução e transformação.
Aliás, ando muito atenta a esse medo, que, muitas vezes, me faz recuar ou vacilar diante de boas ocasiões. Uma vez, indagada por um amigo, tentei explicar o medo e não consegui. E ele com uma paciência de Jó continuava me interpelando “Você tem medo de que?”. O amigo não conseguiu muita coisa sobre a definição do meu medo naquele dia, mas sua insistência me fez pensar depois que a minha resistência em esquadrinhar o medo devia-se ao fato de que, uma vez revelado, ele perde toda a sua força e a sua razão de ser.
No caso da minha “falta de vontade de interagir”, quando me confrontei com o meu medo, percebi que o seu maior alimento era a minha certeza de que a partir dos relacionamentos sou munida de energia para dar um passo adiante. Parece estranho que algo tão positivo possa se transformar em medo. É que, dependendo do ambiente em que crescemos e nos constituímos, assimilamos crenças negativas a respeito de felicidade, sucesso e outras coisas boas. Muitos de nós aprenderam muito cedo a associar coisas boas a uma dose necessária de sofrimento.
Hoje eu sei que não é assim e que tudo o que conquistamos é fruto de escolhas e atitudes. Mas uma parte de mim ainda está presa às crenças antigas, resiste à mudança e encara os presentes da vida com desconfiança. Daí surge o conflito e a necessidade de chamar os “eus” para um conversa. O povo da psicologia chama esse movimento de autossabotagem e eu fico atenta a essa minha turma interna, que ainda insiste em frases como “Melhor um pássaro na mão do que dois voando.” e “Não se mexe em time que está ganhando.”
O melhor disso tudo mesmo é me dar conta de que ainda que conflitos, autossabotagens, resistências façam parte da minha vida, há espaço para a felicidade, o amor e o sucesso. Não há fórmulas, senão a de atentar e respeitar os movimentos, determinando por minhas escolhas o caminho que desejo seguir. Bom é aceitar que terei sempre momentos de muitas trocas e outros mais reclusos, repeitando e optando de acordo com os sentimentos que percebo em mim.
Saí da “casca”, fui percorrer os blogs dos amigos e acabei me deparando com um vídeo em que Beto Guedes, entrevistado por Wagner Tiso, fala sobre essas alternâncias de movimento: ora mais exposto, ora mais recluso...

domingo, dezembro 19, 2010

A felicidade de compartilhar

Bull, um grande irmão que, junto com Bill, zela por
essa maravilhosa "aldeia"
Tem gente que diz que falo demais. Pode ser. Sou meio excessiva mesmo, vou fundo no que gosto: livros, trabalho, estudo, lazer, comida... Há sempre uma bola da vez para os meus excessos e uma contínua busca pelo equilíbrio, o caminho do meio. Mas há limites para compartilhar, abraçar, amar, sorrir? Acho que não. Por isso não me canso de dar e receber isso tudo, com o adendo de que cada troca me deixa com uma nova lição, um novo aprendizado.
Na Aldeia do Sol, um sítio voltado para vivências, cerimônias e práticas xamânicas, as trocas (e, consequentemente, os aprendizados) se dão em ritmo acelerado. É um “intensivão” evolutivo. Desde a minha primeira tenda do suor, há cerca de quatro anos, elegi esse lugar para recarregar as baterias e celebrar a vida. Cada vivência me traz muitas surpresas, novos aprendizados e, invariavelmente, retorno com o coração abastecido de amor. Nesse caso, acho que o excesso não faz mal nenhum.
Dessa vez, confesso que senti o coração apertar a caminho de casa. Sabia dos bons combates que me aguardavam e o desejo era ficar, cercada de amor, amigos, paz, canto dos pássaros, lua cheia, fogueira, boa comida, rezas e tambores. Imediatamente lembrei da passagem da bíblia em que, antes da crucificação, durante as últimas horas de liberdade de Jesus, um apóstolo pede para que fiquem acampados no monte, na tentativa de estender os sentimentos de segurança e paz. Lá estava eu querendo a mesma coisa, temendo perder a plenitude que tinha experimentado.
Cheguei em casa e abraçar meu filho mais novo já dissipou o aperto no coração. Havia muito amor para partilhar e senti toda a boa energia que recebi na aldeia tomar conta de mim novamente. Depois, liguei o computador para baixar as fotos e me conectei com alguns amigos de quem me despedira há algumas horas. E aquela energia foi ganhando mais força. Há sentimentos que aumentam quando repartidos, contrariando todas as lógicas. Então, digo mesmo, pra quem quiser ouvir, que estou feliz, conheço um lugar mágico e tenho amigos que me amam muito.
Me dei conta de que a maior mágica da aldeia somos nós, que, regularmente ou não, circulamos por lá! Não teria como contar, por exemplo, quantas horas de abraços (dados e recebidos) experimentei neste fim de semana. Nem quantas vezes senti meu coração vibrar em diferentes direções. Muito menos o poder dos insights que me economizarão muitas sessões de terapia. Aliás, me dei conta de uma coisa muito mais óbvia: de que sempre precisamos aprender (ou reaprender) algo muito simples, posto bem à vista, mas ignorado pela mente racional e “inteligente”. “O essencial é invisível aos olhos”, dizia o Pequeno Príncipe, e eu ainda me esqueço e caio na armadilha de acreditar que eles é que vão me conduzir ao conhecimento.
* Mais sobre o mesmo:
Nem dá tempo de comemorar a vitória - sobre uma vivência com um índio lakota, em maio/2010
Tenda do Suor - Uma breve explicação e alguns links

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Hoje eu vou mudar

Nessa onda de questionar as motivações e os impedimentos à mudança e à transformação, encontrei essa música que minha mãe escutava em vinil quando eu era criança. Perfeita e muito atual! Vamos aproveitar o embalo de fim de ano? Há sempre algo a ser modificado, uma gaveta a ser arrumada...

Mudanças
Vanusa e Sérgio Sá

Hoje eu vou mudar
Vasculhar minhas gavetas
Jogar fora sentimentos
E ressentimentos tolos.

Fazer limpeza no armário
Retirar traças e teias
E angústias da minha mente
Parar de sofrer
Por coisas tão pequeninas
Deixar de ser menina
Pra ser mulher!

Hoje eu vou mudar
Por na balança a coragem
Me entregar ao que acredito
Pra ser o que sou sem medo.

Dançar e cantar por hábito
E não ter cantos escuros
Pra guardar os meus segredos
Parar de dizer:

"Não tenho tempo pra vida
Que grita dentro de mim
Me liberta!"

(DECLAMANDO)

Hoje eu vou mudar
Sair de dentro de mim
E não usar somente o coração
Parar de cobrar os fracassos
Soltar os laços
E prender as amarras da razão!

Voar livre
Com todos os meus defeitos
Pra que eu possa libertar
Os meus direitos
E não cobrar dessa vida
Nem rumos e nem decisões!

Hoje eu preciso
e vou mudar
Dividir no tempo
E somar no vento
Todas as coisas
Que um dia sonhei
conquistar,

Porque sou mulher
Como qualquer uma
Com dúvidas e soluções
Com erros e acertos
Amor e desamor.

Suave como a gaivota
E ferina como a leoa
Tranqüila e pacificadora
Mas ao mesmo tempo
Irreverente e revolucionária!

Feliz e infeliz
Realista e sonhadora
Submissa por condição
Mas independente por opinião,

Porque sou mulher
Com todas as incoerências
Que fazem de nós
Um forte sexo fraco!

domingo, dezembro 12, 2010

Um belo dia resolvi mudar...

Nunca pensei que fosse tão difícil mudar. Não sei como é para a maioria das pessoas, mas deixei de me achar a única quando comecei a me deparar com uma grande quantidade de livros e artigos sobre o assunto. O desejo de mudança nasce, na maioria das vezes – senão em todas-, da percepção de que algo não está bem e de que há algo muito melhor para se viver, empreender, realizar. Há, portanto, um incômodo profundo. Mas a atitude de mudança carece da visão de novas possibilidades, de um futuro promissor e real.
Foi assim comigo. A percepção de que poderia e deveria mudar alguns aspectos da minha vida existia há muito tempo, mas o impulso de mudar deu-se a partir de uma perda, seguida de uma grande decepção e de um mês de muito sofrimento. Até hoje sou grata por aquele momento, vivido há pouco mais de um ano. A partir daquele dia, vislumbrei o que e como poderia viver e decidi mudar. Ainda estou nesse processo, mas o que eu não sabia é que EU representaria pra mim mesma um obstáculo tão grande.
Há movimentos que percebo em mim que não consigo entender e que provocam sofrimento, dor, e um sentimento de perda que tornam o “ir em frente” penoso. Andei atribuindo tudo ao medo do novo. Nunca acho que estou realmente preparada para o que está por vir, mas havia mais. Há uma parte de mim ainda presa a todos os valores e crenças que me compuseram desde que nasci, repassado carinhosamente por pais, parentes e instituições, que resiste bravamente à mudança. A fidelidade ao passado impede que essa parte de mim possa perceber como operar de um outra forma.
Em contrapartida, há uma outra parte. Talvez a que tenha se permitido ver, no ano passado, o quanto eu poderia viver e realizar, a nova pessoa que eu poderia ser. Mais que a coragem de romper, esse movimento de mudança exige a conciliação entre essa parte de mim que tem todos os registros do passado e a parte de mim que está pronta para emergir. Não há como abandonar uma ou outra, já que ambas me integram. É preciso acolher a primeira e seguir a visão da segunda.
Custei demais a me dar conta disso, e comecei a notar toda sorte de esforço de retroceder. O medo de realizar novos projetos; os pensamentos em reviver antigas histórias, como se assim fosse encontrar conforto; o desmerecimento de conquistas alcançadas; e todo o tipo de pequenas ações que inviabilizam o prosseguir. Em psicologia, chamam isso de ciclos de autossabotagem, e eu precisei reler sobre o assunto para me dar conta do óbvio.
O conflito era tão intenso que me afetou fisicamente: além da tristeza e da insegurança, trouxe-me uma exaustão que eu não conseguia compreender. A luta interna acontece de forma tão ampla que o cansaço físico aparece. Era como se tivesse passado várias noites em claro. Hoje, dormi por 10 horas seguidas. Perceber a luta me ajudou a ser compassiva com as diferentes partes de mim, e, principalmente, seguir em frente. Tenho um grande projeto a iniciar e, para minha surpresa, me deparei com um arquivo de texto em que parte dele já está iniciado. É que comecei a projetá-lo tempos atrás. Quando reduzimos o ruído interno, qualquer realização é possível e o melhor: muito mais FÁCIL.

sábado, dezembro 11, 2010

Quem inventou a palavra saudade?

Fui procurar na wikipedia e descobri que saudade é uma das palavras mais presentes na poesia e na música romântica da língua portuguesa. Aliás, dizem que ela foi cunhada pelos portugueses que deixavam casa e família em busca de novas terras e que foi muito usada no Brasil Colônia. Daí, sua origem latina em solitas, solitatis (solidão). O Aurélio confirma o significado: “Lembrança melancólica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa(s) ou coisa(s) distante(s) ou extinta(s).” É prática comum do ser humano, buscar explicação, comparação ou justificativa para o que sente. Mas nada disso atenua a emoção com que me vejo às voltas.
Saudade é o desejo de voltar?
Sim, há algo de solidão na saudade. Tenho recebido com bastante frequência recados do tipo: “Estou com saudades, mas tenho trabalhado tanto que mal tenho tempo de conversar”. Retribuo, irritada com a falta de tempo generalizada. Ficamos, sós; ficamos com saudades. São todas pessoas queridas, que passo muito tempo sem ver. Parece que, no fim do ano, chega a fatura e a gente se dá conta de que devia ter dedicado mais tempo aos amigos e às boas relações.
Mas a saudade que eu venho sentindo não é bem essa. Ela não se apresenta. Não diz o seu nome. Pelo menos eu não consigo ouvi-lo. Há momentos em que chega a doer no corpo. Por isso, resolvi escarafunchar a saudade. Não gostei do que vi. Como meus antepassados portugueses, estou em constante descobrimento. Novas terras, novos mares... Seria essa saudade um certo medo do novo que está sempre por vir para quem se aventura em descobertas? Uma forma de se lidar com o desejo de voltar ao confortável e acolhedor espaço conhecido, deixado pra trás por quem parte em busca de novos rumos?
Uma amiga disse que tem “saudade boa”, mas eu não acredito. Pra mim, nada que causa dor é bom! E saudade dói! Essa coisa boa a que ela se refere, chamo de lembrança. E quanto a combinar com amor, como diz na wikipedia, fico bem na dúvida. Se o amor é livre, incondicional, supremo, sagrado; não deve ser atravessado pela dor da saudade. Deve entender e respeitar o fluxo da vida, os novos mares por que nos aventuramos, os novos ventos que encontramos...
A saudade tem um quê de teimosia. Instala-se, a despeito das minhas considerações. E, se amar é aceitar, digo pra mim mesma, com todo amor que tenho por mim: fique, saudade; até que eu seja capaz de perceber que a vida tem seu fluxo, que a felicidade está por todo lugar e que o “sentir”, por si só, é uma dádiva.

sábado, dezembro 04, 2010

Aprendendo a falar, aprendendo a escutar

Tenho me referido ao silêncio como uma condição importante para a compreensão humana. Não tenho dúvidas a esse respeito, mas tenho descoberto em mim uma dificuldade de silenciar de que eu não suspeitava. Caio facilmente em armadilhas de palavras que eu mesma construo. E não é porque falo demais, mas porque, muitas vezes, falo o que não devo. Tenho atribuído esses deslizes à baixa qualidade da minha escuta, que tenho exercitado com afinco.
Minha mãe sempre me disse que sinceridade demais é falta de educação. Eu dizia que não. E defendia que todos deveriam dizer o que pensavam e sentiam. Cresci e vi que isso nem sempre funcionava, mas ainda tenho muito o que aprender. Meu mundo dos sonhos ainda é aquele em que as pessoas podem expressar o que pensam e sentem. Sem filtros. A realidade, no entanto, é bem diferente.
Poucas pessoas sabem lidar bem com o que escutam. Interpretam e julgam, para o bem ou o mal, o que ouvem, e isso eu não posso evitar. “Quem fala o que quer ouve o que não quer”, é um dito verdadeiro. Não me melindro com o que escuto, mas fico numa tremenda “saia justa” quando vejo pessoas reagirem ao que falo, por se sentirem afetadas pessoalmente.
O estrago tem todas as dimensões. Num exemplo extremo, afetei negativamente um bom relacionamento por achar que, entre bons amigos, pode-se dizer tudo. Cometi uma grande gafe, ignorando o tamanho do estrago porque não conseguia detectar que há pontos sensíveis que devem ser respeitados. No meu afã de esvaziar os pensamentos, ignorei o sentimento do outro.
Recentemente, em um grupo de amigos, fiz algo semelhante e não medi as consequências que poderiam advir de um comentário sobre a energia predominante naquele dia, entre nós. Uma das pessoas sentiu-se afetada e passou muito tempo justificando-se e interrogando-me, criando um mal estar entre os presentes que poderia ter sido evitado.
Poderia citar muitos exemplos da minha grande lista, já que interagimos e afetamos uns aos outros todo o tempo. Estamos todos conectados e, falando ou não o que pensamos, teremos nossa cota de impacto nas pessoas que passam por nossas vidas. Sendo assim, o exercício de perceber o outro pode tornar essas interações muito mais ricas. Hoje, sei que não se trata de calar ou de falar; tudo é possível e permitido, mas aqueles que sabem escutar melhor descobrem que há momentos em que o silêncio vale mais do que muitas palavras, e que, mesmo as palavras que saem do coração, têm seu tempo para serem ditas. Escutar também é um ato de amor!

sábado, novembro 27, 2010

O silêncio pode ser um caminho em meio ao caos!

A experiência de ser carioca, hoje, tem me provocado reflexões sobre o meu papel diante das transformações por que o mundo grita. Escrevi um artigo sobre isso e penso que o silêncio, em meio a tantos gritos de guerra, pode nos ajudar a encontrar um caminho para a paz. Tenho percebido o quão difícil é ser ouvido, na sociedade em que vivemos e lembrei de uma história de índios (pra variar):
Ouvidos de ouvir

Uma reunião com índios americanos revela um ensinamento importante e urgente.
Agrupados os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos calados à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais.
Esses pensamentos são estranhos aos demais. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se alguém falar logo a seguir, são duas as possibilidades que se pode pensar. Primeira: quem falou está dizendo: Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua fala. Segunda: Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou. Em ambos os casos, está desrespeitando o outro. O que é pior do que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz silêncio dentro, começa-se a ouvir coisas que não se ouvia.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Quem está pronto para amar?

Amor pressupõe liberdade
Nunca falei tanto de desapego. É que tenho percebido o quanto nos aprisionamos e aos outros tentando reter a dinâmica da vida. É como querer parar as ondas do mar: simplesmente não dá. As coisas vão e vem, e as pessoas e os sentimentos, também. E não adianta tentar reter, inverter o fluxo do tempo, just let go. E tem mais: além de coisas e pessoas, retemos dores, doenças e muitas outras manifestações da vida que só querem ser modificadas, curadas, ou seja, passar.
Sei que muitas pessoas sentem dessa forma, mas acabei me tornando minha própria referência, por tantas experiências. Uma delas foi durante uma terapia de cura, chamada “Alinhamento Energético”, que transmuta antigos e nocivos padrões. Tive um daqueles insights poderosos, mas sofri pelo medo de não conseguir viver sem aquele padrão que, embora antigo e conhecido, causava-me tanto sofrimento. Enxergava a oportunidade de mudar, recebia a possibilidade e a ajuda para fazê-lo, mas fiquei agarrada ao que me fazia sofrer. Acontece com as crianças, que não largam seus paninhos ou ursinhos de estimação; e como, em muitos aspectos, somos infantis ainda, acontece conosco quando não conseguimos deixar de lado um relacionamento que só nos faz mal, um trabalho que não nos realiza, entre tantas outras coisas. No fundo, bem lá no fundo, há uma parte de nós que nos condena ao sofrimento. “Jesus sofreu mais”, é o bordão de uma amiga.
Eu decidi que quero ser feliz, realizar meu propósito de vida, exercer o meu potencial e, o mais importante, que isso tudo é lícito, possível e genuíno. Mas isso não me impede de titubear de vez em quando. E foi no meio dessas reflexões que me deparei com os comentários de um amigo na internet sobre o desapego: “O desapego é ideal para coisas materiais, mas se tivéssemos usado o desapego nos nossos relacionamentos desde a nossa existência, ainda caminharíamos nas copas das árvores. Não procuro alguém completo ou que me ache completo, mas que reconheça em mim minhas virtudes e erros e me perdoe e me aceite do jeito que sou e me ajude a crescer, melhorar, não se desapegue tão fácil de mim para não "sofrer".”
Estamos falando de amor, sim. Pelo outro, mas fundamentalmente por si mesmo. O amor não cresce onde não há liberdade e é justamente ela que muitas vezes faz com que uma pessoa decida ir adiante, deixando de lado um relacionamento, seguindo adiante em novas experiências. Como cada pessoa tem seu próprio estágio de evolução e aprendizado na “escola” da vida, nem sempre a outra parte aceita a escolha do outro e é aí que surge o sofrimento. Nessa hora, é preciso praticar o desapego, sim, especialmente das antigas crenças de que algo pode ser pra sempre. “Pra sempre, sempre acaba”, lembra-me a música de Cássia Eller.
Como meu novo amigo, acredito em relações de partilha e companheirismo, que despertam uns nos outros o potencial que precisamos realizar plenamente em nossa jornada de vida. Mas não há como reter pessoas, se desejamos para nós e para os outros a felicidade e a realização. Pode parecer utópico e eu mesmo, às vezes, desconfio de mim. Mas isso é só porque os antigos padrões estão ainda muito arraigados em nós. Eu já disse sim “até que a morte os separe”, mas percebo que a melhor escolha é pela vida, ainda em vida.
A tal da completude, tão questionada, é inatingível em nosso estágio de evolução, mas está em nossa essência. Somos essencialmente plenos, já que somos portadores do código perfeito de Deus (independente de crença, essa afirmação está em quase todas as doutrinas religiosas), e basta-nos reconhecer esse potencial. Só assim, reconhecendo a plenitude desse potencial – imensurável porque simplesmente É, existe - amamos e vivemos no fluxo da vida. Conquistamos nossa liberdade e convivemos com a liberdade dos outros, aceitamos nossos deslizes e os daqueles que nos cercam. Não, amor não dói, não machuca, é intenso, independe de condições favoráveis, está na nossa essência e simplesmente é. Transborda, reverbera, ilumina, encanta e irradia, onde quer que estejamos. E o sofrimento de quem ama? Esse vem do apego, não só ao outro, mas a esse ideal romântico em que nos fizeram acreditar, mas isso deixarei para um próximo post ou para o seu comentário.

segunda-feira, novembro 22, 2010

Violência e resignação

“O que eu mais tenho medo é da violência. É muito chato o que anda acontecendo por aí. Esta semana vi um assalto de dentro do ônibus”, disse-me um filho ontem. Hoje, abro os jornais e vejo a notícia de mais uma arrastão na Linha Vermelha, lugar por onde circulo sempre. Não houve mortes, mas os bandidos roubaram e queimaram carros na hora do almoço. As vítimas relatam o sentimento de impotência. Eu digo a meu filho que não há o que fazer, que não podemos nos isolar em casa e que temos que pedir proteção a Deus. Mas será que é só isso?
Talvez eu esteja errada ao engrossar o grupo dos conformados, daqueles que vão adequando suas vidas ao contexto até que alguma tragédia aconteça e mude todo o cenário. Pelo menos do seu mundo pessoal. Morando na Zona Oeste do Rio, próximo à Barra da Tijuca, passo pelos túneis com receio (depois de resistir muito) para ir a programas na Zona Sul; uso as linhas Vermelha e Amarela com frequência para ir ao Centro, ao Aeroporto Internacional ou à Baixada. Em todos esses casos, corro riscos como todos os cariocas, mas não deixo de fazer tudo o que quero.
Confesso que, por meu desejo, iria mais vezes aos teatros e shows da Zona Sul e Centro, frequentaria assiduamente a Lapa; mas restrinjo esses programas, para reduzir o risco. Optei por morar numa bolha, que chamo de paraíso, encravada entre o mar e a montanha, com uma excelente estrutura de segurança, mas hoje perguntei-me se isso tudo não é sinal de conformação. Não sei o que pode ser feito, mas dizer aos taxistas paulistas, que sempre me perguntam sobre a violência carioca, que “cidade grande é assim mesmo”, “a mídia assusta e aumenta muito” e “há que se ter cuidado em qualquer lugar do mundo”, não é o melhor caminho.
Assumi passivamente a posição de refém, como tantos outros cariocas. Instalei-me num reduto de segurança de onde saio raramente e vou vivendo “como Deus permite”. Assim, não tenho melhor resposta ao comentário do meu filho, senão a de restringir ainda mais suas idas e vindas, aumentar o meu trabalho de motorista nos “leva e busca” da vida. A conformação é a mesma quando leio, no mesmo jornal, sobre a redução dos investimentos do Governo brasileiro em educação e saúde. Eu devo ser capaz de reações melhores do que a resignação.

domingo, novembro 21, 2010

Acampando com filhos

Não sou modelo de nada, muito menos de maternidade. Erro muito, acerto um pouco, mas sempre tenho a certeza de que estou dando o melhor de mim e de que estou aprendendo alguma coisa com essa experiência. Meus três meninos têm um pai muito presente e, logo que começaram a crescer, descobriram muito mais afinidades com ele do que comigo. Agora, que todos são adolescentes, contabilizo as interseções que mantenho com eles: poucas, mas intensas. Consigo ver filme no dvd de casa, com pipoca; jogar Rummikub, Uno e Combate; cantar no videoke; e, recentemente, resgatei o “acampar”. Para dizer o que isso representa em nossas vidas, tenho que contar uma história.
Desde a adolescência, tenho uma paixão, que nem eu própria entendo, por campings, mas não consegui a adesão do pai dos meninos. Então, assim que o caçula começou a andar, comprei uma barraca, atualizei meu título do CCB e resolvi acampar com os três. Nossos acampamentos aconteciam pelo menos duas vezes por ano, com a preciosa ajuda da babá. Temos lembranças inesquecíveis. Acampados, fizemos amigos; aprendemos a velejar; e conhecemos lugares novos e encantadores. Só que os meninos cresceram, a babá deixou de acompanhá-los, começaram os treinos esportivos, e acampar foi ficando mais difícil, já que os momentos de folga eram escassos.
Este ano, resolvi retomar a diversão. Comprei uma barraca bem simples de montar e desmontar, pensando em reduzir o trabalho de todos e aguardei uma oportunidade para estrear. Consegui convencer a dois filhos e aos meus pais de me acompanhar na aventura no feriado de 15 de novembro. Escolhi um camping no estado do Rio (Teresópolis) e com boa infraestrutura, mas as coisas não saíram bem como planejei. A chuva foi constante, e o frio, bem maior que o esperado, mas o saldo final foi positivo.
A simplicidade da barraca desapareceu diante do pedido dos meninos de levar todos os apetrechos que acumulamos ao longo dos anos: geladeira, fogão, panelas, pratos, talheres, mesas, cadeiras, tenda e lonas, entre outras parefernálias. A pedido deles, comprei os clássicos pacotes de macarrão instantâneo e arrumei o carro com toda a tralha. E aí começou minha grande surpresa. Descobri o quanto meus filhos tinham crescido, ajudando a mim e aos avós; assumindo, por vezes, papéis de protagonistas, usando a força - já de homens - para levantar coisas pesadas, apertar e afrouxar cordas, entre outras atividades comuns a acampamentos.
Dormimos juntos, curtimos frio e jogamos muito Uno. Ele curtiram os avós que inventavam brincadeiras e passatempos para quando a chuva apertava. Apesar de vivermos em contato estreito com a natureza, eles chamaram a minha atenção para o joão-de-barro que passeava por nossa barraca, para o céu, para o pôr do sol. Tivemos nossas brigas também, perdi meu Blackberry correndo de loja em loja para procurar um fusível para um aparelho nosso que quebrou, mas, na volta, já estávamos combinando o próximo, com menos tralhas, mas com o mesmo propósito de ficarmos juntos e vivermos experiências diferentes.
** Fico devendo fotos, que estavam no Blackberry perdido.

sábado, novembro 20, 2010

Um gesto de amor... Vamos ao abraço?

Conheci a Amma em sua vinda ao Rio, há cerca de 3 anos. A programação, no Hotel Intercontinental em São Conrado, previa muitas atividades e, em alguns horários, meditação coletiva, cânticos e abraços. Sim, abraços! E milhares de pessoas faziam filas para ganhar o abraço dessa mulher que é capaz de ficar até 30 horas seguidas abraçando pessoas, dizendo mantras em seus ouvidos e distribuindo balinhas. São SÓ abraços, mas com eles, essa indiana cura espiritualmente a muitos milhares e ainda conquista adesões para suas obras sociais que ajudam aos necessitados de todo o mundo, especialmente da Índia.
A energia que senti naquele dia me marcou a ponto de poder revivê-la anos depois. Ganhei meu abraço sei lá que horas da madrugada. Devo ter esperado umas 7 horas por aquele momento, sem ver o tempo passar. Enquanto esperava absorvia a energia maravilhosa que emanava de milhares de pessoas de todos os pontos do país que viajaram e sentavam lá só para fazer o mesmo que eu: compartilhar amor. Famílias, crianças de colo, adolescentes, idosos... pessoas de todas as raças cores e idades aglomeravam-se organizados por voluntários.
No refeitório, alimentação a preços baixos para que todos pudessem se manter durante as longas jornadas de abraços. A um canto do refeitório, um pratinho que havia sido usado pela Amma, ficava à disposição daqueles que queriam temperar seu ensopado indiano com um pouco da comida daquela que é considerada santa por muitos. Eu chamei de “baba” da Amma e coloquei uma colher, feliz, em meu prato.
Lembrei disso tudo agora, por causa de uma frase que uma amiga postou no Facebook. E aí pensei nas muitas pessoas que conheço que se esquecem de seu valor e dizem: “não sou bom o suficiente”, “não posso ser exemplo pra ninguém”, “não tenho o que dar ao outro”. Será que não sabem dar um abraço? O mundo não precisa de muito mais que isso. A grandiosidade está nas pequenas coisas que, de tão pequenas, passam tão despercebidas, a ponto de fazerem falta ao equilíbrio do Planeta.
O amor é a força mais transformadora que existe e, para ampliá-la, multiplicá-la, recebê-la, tudo o que precisamos é dar. Quanto mais se dá-amor, mais se recebe, numa operação que subverte todas as leis da matemática: o amor nunca subtrai. O melhor é que qualquer pessoa, em qualquer estágio da vida, com ou sem problemas emocionais, financeiros, fraquezas e tristezas pode fazer esse movimento. E amando, é capaz de encontrar uma força terapêutica para si mesmo. Foi assim com a Amma, quando descobriu seu potencial de amar e curar. É claro que a missão dela é mais ampla, mas quem não sabe abraçar? Experimente agora. Abrace alguém ao seu lado, com amor, sem pressa, e veja o que acontece.

quinta-feira, novembro 18, 2010

O que pode mudar o seu estado de espírito agora?

Foi isso o que perguntei a uma amiga que não parava de chorar. Ela não sabia me dizer o porque da sua tristeza, mas sentia-se só. Às vezes, achava que não tinha ninguém por perto e não importava o quanto lhe mostrasse que eu estava ali, ainda assim ela insistia na tristeza. Naqueles momentos, somava tantas coisas que lhe seria mesmo impossível precisar a razão do choro. Juntava o amor idealizado e desfeito, a amizade perdida, a frustração pelo trabalho não realizado, promessas não-cumpridas feitas a si mesma, as impossibilidades, as escolhas inadequadas que haviam causado mais decepção e por aí seguia formando uma imensa “bola de neve” de tristeza.
Meu desejo, com a pergunta, era que ela pudesse ajuntar sentimentos e emoções na direção inversa. Queria que ela percebesse a beleza e a vivacidade que tornavam-na uma mulher interessante, a inteligência que a mantinha em um cargo disputado de uma empresa multinacional, o carisma e a meiguice que atraiam novas relações por onde quer que fosse e tantas outras coisas que, juntas, poderiam enchê-la de felicidade. Buscava apenas fazer com que percebesse o quanto era uma pessoa abençoada e que poderia focar em outro ângulo da vida que não aquele reservado aos fiascos.
Não adiantou. Ela parecia surda aos meu apelos e insistia em avolumar a “bola de neve” de pensamentos de fracasso e perdas. Sua insistência era tanta e seu choro tão sentido que eu, na posição de amiga, com o desejo de confortar, acabei pensando também nas minhas perdas e insucessos. Também eu tinha histórias – e muitas – que não haviam dado certo. Umas, por minha responsabilidade mesmo: por erros cometidos, pela falta de crença nas minhas potencialidades, pela simples falta de persistir ou por insistir no caminho errado. Outras, por decisões alheias a mim, sobre as quais jamais teria algum controle, mas que afetavam diretamente as minhas experiências, interrompendo ciclos que desejava continuar, causando perdas que eu não me julgava preparada a assimilar.
Não há do que me lamentar. A vida é assim mesmo, mas todos podem escolher de que material farão suas “bolas de neve” mentais. O certo é que, qualquer que seja a escolha, ela desencadeará outras que se sucederão avolumando-se em uma massa de energias afins. Eu já estava formando a minha, resgatando toda a tristeza de que poderia me cercar, quando me dei conta que estava agindo tal e qual minha amiga. Bom, se ela não sabia (ou não queria saber) o que poderia mudar a sintonia de seus pensamentos, eu certamente poderia fazer diferente.
Contei-lhe o que estava acontecendo comigo e disse que eu escolhia não sucumbir às lembranças de perdas que tive. Mudei o foco. Pensei nos presentes com que o Universo me surpreendia todos os dias, nos amigos queridos, no bilhete tímido que acabara de receber... Fui colecionando pontos de luz e compartilhando com a minha amiga. Eram tantos e tão poderosos que ela própria começou a se iluminar. A tristeza foi se desfazendo e eu pedi-lhe que fizesse uma lista das coisas que fizeram-na sorrir nos últimos dias. Não demorou muito para que nós ficássemos felizes novamente. Repeti a pergunta: O que pode mudar o seu estado de espírito agora? A simplicidade da resposta me espantou: aquele sorvete gostoso que só vende no Zona Sul. Fomos as duas comer nosso Diletto e comemorar esse pequeno resgate de vida que acabávamos de fazer.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Sobre a afinidade

"A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente.
Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavra.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento."
Artur da Távola

terça-feira, novembro 09, 2010

O que é o amor?

Nenhuma pretensão de definir o amor por aqui! Tantos poetas e escritores tentaram fazê-lo pra chegar à conclusão de que o amor é mesmo pra ser vivido, e não explicado. O amor é assim: pleno, enorme, absoluto e, ao mesmo tempo, ou talvez por isso mesmo, não pode ser contido em palavras. Se escrevo sobre o amor, é porque ando descobrindo coisas a seu respeito que eu jamais poderia supor ou que, mesmo supondo, não havia, ainda, experimentado.
Uma das minhas descobertas é que o amor simplesmente é. Não depende de absolutamente nada para exisitir. Ele existe e pronto. Não precisa de reciprocidade, nem de atenção. Ele está lá, preenchendo todos os espaços do ser que puder alcançar. Não causa sofrimento; está acima de qualquer dor.
Quem ama alegra-se junto com com a pessoa amada e nem se importa se ela sabe ou não dessa alegria compartilhada. Compartilha e contenta-se por isso.
Quem ama não tem medo de perder; porque o amor, ao contrário do que muitos dizem, é livre, não tem o desejo de reter, aprisionar e virar senhor do instante ou da vida de outrém. O amor abre portas, janelas, escancara a vida.
Quem ama enxerga a vida diferente e vê graça na flor, na chuva, no dia sem sol, nas aves, nos idosos, na criança. O amor enche a vida de cor e se esparrama por todo lugar onde passa. Ele contagia, alheio a tudo e a todos, e irradia-se atingindo e conquistando novos amores.
Quem ama não passa despercebido, nota-se um ser amante à distância. Ele é incansável em amar. E ama nas compras do supermercado, na noite mal dormida, na reunião interminável, na rotina dos afazeres domésticos, nas muitas contas pra pagar, na agenda abarrotada... Ele simplesmente ama.

segunda-feira, novembro 08, 2010

"Felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia"

Continuando a discussão sobre o que é ser normal... Há muito tempo li a frase atribuída a Gandhi numa revista. Chorei horrores naquele dia, porque nada em mim estava em harmonia. O que eu pensava não tinha nada a ver com o que eu dizia e muito menos com o que eu fazia. Hoje, agradeço ao Universo e sorrio cada vez que vejo essa frase em algum lugar, porque sinto que, cada vez mais, alinho sentir, pensar e fazer. Muito longe da perfeição, tenho a consciência de que meus muitos erros são frutos do que penso. Assim, fica muito mais fácil me revisar a cada instante, sem dó nem piedade. Se for preciso, me viro do avesso, mas dificilmente farei algo em desacordo total com o que sinto. 
Não assisto à vida passar passivamente. Às vezes, esqueço tudo o que aprendi, e volto às antigas lições; outras, passo por lições simples como quem está passando por uma prova de fogo; outras, ainda, supero com louvor desafios realmente difíceis e que eu não me acreditava capaz de transpor. Assim, vou me construindo e me dou conta, feliz, que isso não tem nada a ver com a idade, mas com a disposição de se abrir pro novo, pra vida e pra si mesmo.
Por conta do meu próprio movimento, acabo esbarrando em pessoas com impulsos semelhantes, que me mostram a todo momento que tudo é possível, para desespero de outras, que preferem não acreditar que a vida é mesmo uma mar de infinitas possibilidades. Pensando bem, que pessoa normal escreveria sua vida em um blog? Mas, pensando melhor ainda, que bom que há pessoas alucinadas que conseguem fazê-lo, porque assim interagimos de uma forma que, em condições “normais”, talvez não fosse possível!
Segue um pequeno dialógo extraído do livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, considerado por muitos, à sua época, meio louco:
- Como é que você sabe q é louco?
- Comecemos considerando que um cachorro não é louco – respondeu o Gato - Você concorda com isso?
- Acho que sim – disse ela.
- Nesse caso – continuou o Gato – lembre-se de que um cachorro rosna quando está bravo e abana o rabo quando está contente. Já eu rosno quando estou contente e abano o rabo quando estou bravo. Portanto eu sou louco.

sábado, novembro 06, 2010

Normal? Eu?

É normal curtir bons momentos em
cemitérios? Pra algumas pessoas, é!
Sábado a noite. Pergunto-me se é normal alguém ficar em casa sozinha por sua própria escolha. E, além disso, ver um filme, comer pipocas, beber um vinho e comer azeitonas, simplesmente feliz. Deve ser. Afinal, esta sou eu e acabo de me olhar no espelho: vi uma carinha com uns princípios de rugas, aparentemente muito tranquila e saudável. Portanto, declaro-me normal.
Agora, questiono sinceramente, e com muito amor, todas as pessoas que sempre se preocuparam em me dizer o que era normal. Claro que todas sempre quiseram meu bem e talvez percebessem que eu, de fato, não me encaixava bem em suas histórias. Penso que esse é um movimento inconsciente: de alguma forma tentamos enquadrar tudo às nossas convicções, mas, no fundo, não fazemos isso pelo outro, mas por nós mesmos, na tentativa de mantermos o que chamamos de estabilidade ou de “normalidade”.
Eu nunca entendi mesmo essa minha obsessão por enquadramento. “É normal sentir isso? É normal sentir aquilo?” Já fiz essa pergunta pra mim e pros outros inúmeras vezes. Movida, talvez, por uma necessidade enorme de pertencer a um grupo ou de ser reconhecida, já que eu própria não conseguia reconhecer a mim. Tudo bem que sou do signo de gêmeos, mas desde a adolescência era o próprio paradoxo encarnado. Uma das histórias mais marcantes que conservo de mim é a de eu ser “zoada” por um amigo porque não conseguia decidir a cor da mochila que ia comprar e pensei em ligar pra minha mãe pra perguntar o que ela achava. O contexto? Eu tinha 17 anos e estava prestes a embarcar para um programa de intercâmbio de 12 meses onde moraria com uma família americana. O amigo querido, claro, não acreditava que eu não pudesse dar conta de uma escolha tão simples.
Preciso dizer que acabei de ver o filme “Tudo pode dar certo”, de Woody Allen. O homem é absolutamente perturbado e perturbador, mas deu certo graças ao seu talento de perceber (e cutucar) a condição humana. Fosse ele “normal”, faria comédias românticas ou outro tipo de filme, e talvez obtivesse até mais sucesso. Vai saber. O filme caricaturiza, mas emociona ao mostrar que todos podem ir além dos estereótipos humanos (ou não) e terem momentos felizes entre suas escolhas, independente de quais sejam.
Não estou presa ao passado, mas acho importante perceber que passei minha vida quase toda tentando me enquadrar a um modelo em que jamais me encaixei. Não culpo ninguém e, por isso, uso essa experiência nas minhas escolhas atuais e, mais importante que tudo, naquilo que transmito aos meus três filhos. Se eles perceberem meu esforço para viver de acordo com o que acredito, já me dou por muito satisfeita. No entanto, o mais impressionante, realmente, é que é justamente por assumir minha complexidade, minha vida ficou infinitamente mais simples.
** Este post continua. Mas, antes disso, me diga, o que é ser normal?

quinta-feira, novembro 04, 2010

Painel dos Sonhos

Todos somos responsáveis por nossos sucessos e fracassos, certo? Podemos escolher, a qualquer momento de nossas vidas, recriar nossa realidade tornando-a mais próspera, feliz e amorosa. Mas por que nos fixamos, muitas vezes, no padrão do lamento e da autopiedade? Por que escolhemos acreditar que as coisas não andam muito bem porque Deus quer assim, porque tinha que ser ou porque é nosso destino?
Falo agora por mim, que há oito anos comecei a estudar diferentes fenômenos energéticos e espirituais e, só no ano passado, comecei, de fato, a experimentar esses efeitos na minha vida. Ao contrário de anos atrás, quando me sentia andar em círculos, hoje sinto-me em uma espiral ascendente. Mesmo resvalando em antigas crenças, consigo avançar e descobrir novas formas de realizar meu potencial. Há dificuldades, momentos em que pareço não sair do lugar, mas há vitórias de todo tamanho que comemoro com muita alegria e acabo compartilhando aqui.
Uma delas foi fazer o meu Painel dos Sonhos. Já conhecia a “mandinga” há muito tempo, mas nunca tive muita paciência ou confiança para fazê-lo. Pois bem, andava meio desanimada por não conseguir executar algumas coisas que desejo e resolvi começá-lo com bastante amor e fé, feliz por estar “desenhando” ali o meu futuro. Peguei uma cartolina branca, escrevi Painel dos Sonhos, e procurei, em revistas, gravuras que traduzissem minhas aspirações, símbolos de onde quero chegar na minha vida pessoal, afetiva, financeira, espiritual, profissional... Todos os dias, dou de cara com ele ao me levantar e acho lindo! Olhar de forma concreta para os meus sonhos ajuda-me a materializá-los e a perceber que as dificuldades são transitórias e transponíveis.
Essa é só uma forma pessoal que encontrei de superar um momento em que a acomodação deixava a inércia se instalar. Afinal de contas, talvez não precisasse de nenhum esforço para me apaziguar com a abundância e o amor do Universo, não fossem minhas barreiras e crenças pessoais. Essas, sim, exigem de mim consciência, atenção e perseverança. O quadro tem me ajudado, mas junto com ele há outras ações como o planejamento de ações para alcançar as metas que me conduzirão aonde desejo chegar.
E você? De que forma tem se aproximado de seu sonho? Compartilhe com a gente!

terça-feira, novembro 02, 2010

Eu venci uma batalha entre milhões de espermatozoides

Foi isso o que afirmamos (eu e o pai) para o filho, quando ele contou que a professora havia dito que apenas um em um milhão de meninos conseguia realizar o sonho de tornar-se jogador de futebol profissional. Repetimos: você é um vencedor e começou a vencer há muito tempo, ainda na barriga da mãe.
A história dele é realmente empolgante. Apesar de só ter 13 anos, já jogou na Europa, em uma seleção de crianças de escolinhas de futebol do Flamengo; vestiu a camisa do Bangu, do CFZ e, atualmente, a do América. Em 2011, começará no infantil e pensa no futuro de uma forma muito madura, analisando as possibilidades de times, de mudanças de escola, entre outras. Cuida da alimentação e da saúde com seriedade, sem deixar de se divertir. É um campeão e, com certeza, continuando nesse ritmo, se profissionalizará em breve.
Mas o que mais gostei, dessa história toda, é que, ao dizer que ele já era um campeão ao nascer, estava repetindo pra mim mesma e contando pros outros filhos que somos os grandes responsáveis por nossas vitórias e derrotas. E porque isso, que parece tão simples e óbvio, não é senso comum? Por que a maioria das pessoas (eu, inclusive) tem dificuldade de acreditar que pode criar a sua realidade? Por que tantos lamentos no lugar de brados de vitória? Quando deixamos de experimentar nossa porção divina?
Leio textos e histórias de eras pré-cristãs e vejo o quanto o poder da autoconfiança e da energia do pensamento sempre foi atribuído a pessoas especiais como forma de manutenção do status quo. Sacerdotes e sacerdotisas, magos e bruxas, reis (e algumas rainhas) eram detentores naturais desse poder, que nunca foi exclusivo. Não é por acaso que o livro O Segredo fez e faz tanto sucesso. Se todos acreditarem que tudo é tão simples, como manter a estrutura social que está aí? Se posso me curar, enriquecer, buscar a minha felicidade, de quem serei dependente? A quem ou a que obedecerei?
O fato é que, hoje, há pesquisas que começam a comprovar que o pensamento, as vibrações energéticas podem mudar a realidade objetivamente. Há uma, recente, de que particularmente gosto muito, que comprova a alteração da estrutura das moléculas da água quando submetidas a preces e pensamentos alegres e positivos (http://www.hado.net/). O pesquisador japonês, sr. Emoto, afirma que essa é uma mensagem do Universo de que devemos olhar mais para dentro de nós, onde estão as respostas para um mundo melhor. Veja o livro.
Amanhã publico aqui um jeito que comecei a experimentar recentemente de lembrar-me e praticar tudo isso.

sábado, outubro 30, 2010

Solidão? Cuidado, isso pode ser outra coisa!

Acordei querendo colo. Um sentimento que parecia uma solidão sem fim. Justifiquei-me, para mim mesma, com a ideia de que estar ao lado de alguém naquele momento era uma necessidade genuína, já que, de fato, poucas vezes estivera sem a companhia de alguém. Nem sei exatamente o que desejava, se desabafar, estar com uma pessoa amiga ou um companheiro, segundo aquela ideia romântica de que uma figura masculina pode dar conta das nossas questões. “Isso é falta de chamego”, pensei.
Tentei mudar a sintonia da minha energia. Mergulhei nos trabalhos que precisava terminar, o que me deixou bastante envolvida e motivada. Depois, fui dar uma corrida na praia. Sozinha diante do mar, chorei, aceitei e acolhi minha tristeza e me senti mais forte. Passou. Como tudo o mais na vida. O tempo não para e não há o que não passe. De uma forma ou de outra, tudo pode ficar pra trás, se lá deixarmos.
Conversando sobre o assunto com um amigo, fiquei surpresa ao descobrir que ele nunca se sentira assim e julguei-me: “solidão é para os fracos”, sendo, mais uma vez, exigente comigo mesma. Ele contou-me que poucas vezes ficara sem namoradas, mas que, quando isso acontecia, gostava do que sentia e da possibilidade de estar consigo. Descreveu-me algumas situações que tinha experimentado. E eu pensei que também me sentia assim: adoro os amigos, a família, mas sempre gostei muito das ocasiões em que posso estar comigo. Realmente, não tenho problemas em estar só.
Foi aí que me dei conta da real causa daquele sentimento que me entristecera. Eu estava só de mim. E se isso não fizer sentido, eu explico: quando estou inteira comigo, bem conectada à minha essência, que é aquilo que eu tenho de mais genuíno (e divino), não me sinto só. Não quero caminhar pela vida sem a companhia do outro, mas a verdade é que esse sentimento jamais me incomoda, se estou plena em mim. A solidão que sinto é o afastamento de mim mesma; este, sim, um movimento que desejo muito evitar. A companhia dos amigos é muito bem vinda, mas é mais prazerosa quando sei bem quem sou, o que quero e permaneço bem acompanhada de mim mesma. Isso não é solidão, deve ter outro nome!

segunda-feira, outubro 25, 2010

Meu direito ao não-voto

Fui criada em meio à política. Minha família era representante de uma corrente política tradicional no bairro onde morava, na Zona Oeste do Rio. Desde pequena, participava dos movimentos de campanha e de conversas sobre os rumos do bairro, da cidade e do país. Participante ativa dos movimentos sociais da Igreja Católica, estudante de jornalismo, militante política... A motivação era sempre o desejo e a crença de poder transformar o mundo, através da minha contribuição pessoal. E esse movimento era tão forte, que aspirava candidatar-me a um cargo eletivo.
Não sou mais militante, não faço discursos inflamados, respeito toda e qualquer opinião alheia e diversa, continuo acreditando que cada um de nós pode contribuir para um mundo melhor; mas essa introdução toda é pra justificar – como se precisasse – que, nesta eleição, exercerei meu direito de não-voto! Neste momento da minha vida, quando concentro esforços para alinhar desejos, discursos e práticas, transformando-me em uma pessoa mais inteira, não acho justo me obrigar a apoiar alguém que me causa repulsa e indignação pela oratória vazia, pela falta de respeito por si mesmo e pelos outros e pela incoerência de atitudes. Não quero um nem outro! Sei que um dos dois assumirá a gestão do País, com sua equipe, indiferente à negação do meu voto, mas não quero me sentir (e não serei) cúmplice.
No fundo, ainda pairam sobre mim os resquícios do meu próprio discurso de anos atrás, quando acusava aqueles que se abstinham de votar de abrirem mão de seu papel no processo democrático. Hoje, estou mais complacente, com os outros e comigo mesma. Sei que a democracia não me obriga a compartilhar, e assinar embaixo, através do voto, pensamentos de que discordo e que ferem alguns dos meus princípios mais caros. Não acredito, sinceramente, que aqueles que não respeitam a si mesmos, possam ser capazes de me respeitar. E é o que tenho visto, tristemente, ao longo da campanha.
A democracia deve comportar também pessoas que não desejam participar do processo eletivo, seja porque motivo for. Não se promove consciência política através do voto obrigatório e temos comprovado isso com os resultados das eleições em todo o País. Portanto, não voto, em paz com a minha consciência, mas triste pelo rumo da política brasileira.

terça-feira, outubro 19, 2010

Tempo para conversar

Falta de tempo não pode ser um muro capaz
de impedir o aprofundamento humano
(Quadro de Eliane: www.corearte.com)
Eu pedi notícias, ao que ele respondeu, no dia seguinte, quando sequer lembrava da pergunta: “o céu está cinza, o transito caótico e a agenda cheia”. A simplicidade dessa “conversa” me fez dialogar comigo mesma. Que tipo de pessoa pede a alguém com quem troca mensagens com alguma frequência que mande notícias? Eu me respondi: alguém que está carente de boas conversas, daquelas em que a alma se esparrama sem medo, sem defesas, sem vergonha.
Assustei-me diante dessa constatação e, continuando meu diálogo interno, pensei nos amigos que me cercam, na falta de tempo de encontrar alguns deles para um almoço, na dificuldade em compreender o que o outro tem a dizer quando há divergência de pensamentos, e no quanto guardo pedaços de mim quando acho que não serei acolhida. De fato, para a alma se esparramar, é preciso um ambiente propício, construído com amor, confiança e respeito mútuos. Pensando bem, devo estar precisando disso mesmo.
Não bastasse a falta de tempo, que dificulta os bons encontros, como a colocar-nos diante de provas que tornam os momentos de boas conversas ainda mais preciosos; há ainda alguma outra coisa que faz como que esses ambientes, onde a alma pode se despir, tornem-se cada vez mais raros. Não adianta atribuir toda a culpa ao tempo. Há alguma coisa a mais, que ainda não sei exatamente o que é, que faz com que as almas não se toquem. Os cumprimentos efusivos são permitidos, todos somos amigos, mas nada além disso.
Não sei descrever com as palavras, mas sei muito bem quando estou diante de uma dessas possibilidades. Posso dizer que não sinto medo de falar. Também sinto vontade de ouvir, assumo as minhas diferenças sem receio de parecer indelicada, escuto as observações divergentes sem me sentir rejeitada. E isso não é fácil. Mesmo para quem discorre sobre suas próprias emoções em um espaço público como um blog. Há sempre partes de nós que permanecem trancadas, até encontrarem espaços propícios para se revelarem. E, quando se destrancam, surpreendem até seus próprios guardiões. Está certo, não vou culpar o tempo, mas vou negociar com ele uma forma de passar mais tempo com meus amigos.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Sinal Fechado

* Uma homenagem a quem amo! Porque o tempo tem sido o maior obstáculo ao cultivo de bons relacionamentos.
Chico Buarque
Composição: Paulinho da Viola
 
– Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?
– Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro... E
você?
– Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranqüilo...
Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é, quanto tempo!
– Me perdoe a pressa - é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
– Pra semana, prometo, talvez nos vejamos...Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é...quanto tempo!
– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das
ruas...
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
– Por favor, telefone - Eu preciso beber alguma coisa,
rapidamente...
– Pra semana...
– O sinal...
– Eu procuro você...
– Vai abrir, vai abrir...
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço...
– Por favor, não esqueça, não esqueça...
– Adeus!
– Adeus!
– Adeus!
 

domingo, outubro 17, 2010

Que a força esteja com você!

A frase ficou famosa em Guerra nas Estrelas, mas ela está em nosso dia a dia; a força está com todos nós. Sem nenhuma pretensão, afirmo: somos deuses ou, se soar melhor, centelhas divinas. Temos um poder ilimitado de curar-nos, de interromper velhos hábitos que não nos fazem bem, de atingirmos os objetivos mais complexos que traçamos para nós mesmos. Somos, sim, muito mais do que parecemos. O problema é que nem sempre acreditamos em nosso potencial. Desde muito pequenos, escutamos frases limitantes, advertências e conselhos capazes de impedir-nos alguma ousadia ou desatino. “Pra que correr riscos, meu bem? Mas vale um pássaro na mão que dois voando. Ninguém troca o certo pelo duvidoso.” Quem de nós nunca escutou frases semelhantes?
Eu escutei e, durante muito tempo, gravei-as e repeti para mim mesma. Até hoje, peço licença, como no início desse texto, para afirmar minhas crenças. Por favor, você me permite acreditar que eu sou parte de algo maravilhoso, dotada de um potencial inesgotável de realização? E se você me permitir, também lembrarei isso a você e a quem mais quiser ler esse texto.
Tenho certeza de que só nos falta acreditar, mesmo! Digo isso por experiência própria. Tenho experimentado e compartilhado mudanças em minha vida a partir da substituição de velhos padrões de crenças. E se não consigo mais é porque, com mais frequencia do que desejo, escorrego e me vejo enredada nas minhas crenças limitantes. E lá vou eu reclamar da vida, das impossibilidades e de perdas que não assimilo.
Por isso, eliminei a palavra “desistir” do meu caminho e, se choro hoje, sei que poderei rir amanhã. Essa alternância só depende de mim, exige esforço e persistência, mas está ao meu alcance. E eu quero cada vez mais. Há quem me olhe com desconfiança quando digo que busco a felicidade. Na realidade, eu sei que essa busca não me assegura lugar no paraíso, não me torna mais capaz ou mais forte do que ninguém, mas descobri que não existe prazer maior do que comemorar os sucessos cotidianos, frutos de esforços contínuos. E eles podem ser tão simples quanto o término de um livro, um papo com um filho, o início de uma dieta adiada há muito tempo ou um almoço com amigos queridos. Afinal, toda grande jornada começa com um primeiro passo, não é?

sábado, outubro 16, 2010

De que cimento sou feita

De que somos feitos? Penso no cimento e nos tijolos que me constituem. Se fosse me comparar a uma obra, seria um prédio de comunidade, daqueles que vão subindo aos poucos, de acordo com as necessidades e os recursos de seus moradores. Muitos puxadinhos, material doado por um e por outro, diferentes tipos de tijolos, uma janela de cada jeito, uma parte da parede faltando emboço. E dentro? Dentro haveria sempre água no fogo e ervas frescas para um chá, café passado na hora (porque café coado tem muito valor!), um bolo de milho para servir aos amigos e um pãozinho saído do forno. Pronto, está compensada a rusticidade da fachada!
Mas o desalinho da construção – metáfora de mim mesma – tem o seu porquê. É que cada pessoa que encontro, cada acontecimento, acrescentam algo a essa construção permanentemente inacabada. Se parte de mim desmorona, é para dar lugar a algo mais bonito e maior. Há pessoas que passam por processos de demolição, para depois se reconstruirem inteiras, com uma fachada imponente, bem desenhada. Todas as construções têm sua beleza, mas, em todas elas, há lá um alicerce do qual não se desfaz. Ele também foi construído ao longo dos anos, porque ninguém nasce pronto e não fazemos sozinhos nossas bases ou a de nossos filhos.
Há pessoas que estão lá, no fundamento de nós mesmos. Sem desmerecer os muitos amigos que colecionei ao longo da vida, tenho uma amiga cuja vida está tão entrelaçada à minha que, mesmo passando por total restauração, o meu prédio da vida ainda a conservaria. Ela deve estar lá no tal do alicerce, muito bem amarrada entre ferros e concretos.
Não somos parecidas. Na verdade, somos tão diferentes que, depois de casadas, não conseguimos mais viajar juntas. Uma vez encontramo-nos, por acaso, em Visconde de Mauá, um lugar que adoramos desde a adolescência. Ela com sua família, eu com a minha. Ela acampada, eu em hotel. Nem assim conseguimos ficar juntas: quando nos encontrávamos, seu grupo estava indo tomar café da manhã, enquanto o meu se preparava para almoçar. Diferenças de fuso horário. Ela pariu meninas, eu pari meninos. Ela meio cética, eu uma crente. Ela adora Natal e enfeita cada canto da casa com bichinhos, monta três árvores; eu, se pudesse, não montava uma.
A lista é grande... mas nada do que mencionei tem peso algum. Não sei se por antiguidade (ela está lá no meu alicerce, lembra?), mas o que nos une é um amor tão grande que supera tudo. É a pessoa de todas as horas, de todas as intimidades, de todos os desvarios, para quem tudo pode ser confessado. Não nos vemos sempre, mas falamos uma com a outra todos os dias.
Por tudo isso, agora, vendo-a hospitalizada, senti um tremor. É um terremoto que atingiu o alicerce do meu prédio. Balançou, mas não cairá! Porque ela sempre estará no lugar onde sempre esteve: na composição de mim.

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
     Pilar da ponte de tédio
     Que vai de mim para o Outro.
Mário de Sá Carneiro
(Lisboa, fevereiro de 1914)

quarta-feira, outubro 13, 2010

De mãos dadas

Quando o telefone tocava, havia uma novidade. Fosse a roupa nova, o ficante que tinha passado a namorado, o convite pra uma festa, a amiga que havia desaparecido, o namorado da outra com uma outra, numa lista interminável de coisas importantes. O tempo passa, coisas importantes vão sendo substituídas por outras coisas que dizem ser mais importantes e algumas amizades de adolescência vão sendo relegadas à condição de lembranças. Quando eventualmente há um encontro, faz-se uma pausa para o inevitáveis “você lembra” e, depois, a vida segue seu rumo.

O pequeno pode parecer grande, dependendo do enfoque
Alguns desses encontros, no entanto, merecem mais do que uma pausa. Dá-se uma oportunidade para o resgate, não do passado, mas das possibilidades do presente e do futuro. Nesses momentos, mais do que ataque de saudosismo, o que passou serve para reaproximar velhos amigos e criar novas oportunidades de relacionamento para ambos. A alma fica aquecida quando envolta por uma amizade de tempos atrás.

Retomar velhas amizades, poupa-nos os descaminhos e as inseguranças de uma nova relação. Facilita revelações, o compartilhar das angústias íntimas e das alegrias mais genuínas. É mais fácil confessar medos como, por exemplo, aqueles que aparecem a cada nova esquina que surge à nossa frente. Sabemos que devemos avançar, mas o temor diante daquilo que virá nos faz paralisar. Imaginamos um lugar escuro e aterrador, para não ter que enfrentar o novo. Esquecemos, muitas vezes, que, do outro lado, pode estar um dia lindo e ensolarado. Imaginamo-nos sós, quando, além daquele ponto, podemos encontrar outros velhos amigos e alguns novos podem se juntar a nós.

É por isso que hoje me imaginei de mãos dadas com uma velha amiga. Temos uma nova esquina à frente e um medo enorme daquilo que está por vir, mas, de mão dadas, fica muito mais fácil. Fechei os olhos e vi o sol nascendo depois dessa esquina. Não pensei em uma nova rua, mas em uma cidade inteira cheia de encantos para serem desvendados. Cenas para serem fotografadas. Vamos? De mão dadas, é possível enfrentar o medo que nos parece tão gigante, encarar os fantasmas que criamos e chegar aos lugares que sonhamos.

segunda-feira, outubro 04, 2010

O Silêncio dos Índios

Nós os índios conhecemos o silêncio.
Não temos medo dele.
Na verdade para nós ele é mais poderoso
do que as palavras.

Nossos ancestrais foram educados
nas maneiras do silêncio e eles
nos transmitiram essa sabedoria.
"Observa, escuta e logo atua" nos diziam.
Esta é a maneira correta de viver.

Observa os animais, para ver como cuidam de seus filhotes.
Observa os anciões, para ver como se comportam..
Observa o homem branco para ver o que querem.
Sempre observa primeiro com o coração e a mente quietos
e então aprenderás.

Quando tiveres observado o suficiente então poderás atuar.
Com os brancos é o contrário.
Vocês aprendem falando.
Dão prêmios às crianças que falam mais na escola.
Em suas festas todos tratam de falar.
No trabalho estão sempre tendo reuniões
nas quais todos interrompem a todos
e todos falam cinco dez cem vezes.
E chamam isso de "resolver um problema".
Talvez o silêncio seja duro demais a vocês
porque mostra um lado que não quereis ver.

Quando estão numa habitação e há silêncio ficam nervosos.
Precisam preencher o espaço com sons.
Então falam compulsivamente
mesmo antes de saber o que vão dizer.
Vocês gostam de discutir.
Nem sequer permitem que o outro termine uma frase.
Sempre interrompem.

Para nós isso é muito desrespeitoso
e muito estúpido inclusive.
Se começas a falar eu não vou te interromper.
Te escutarei.
Talvez deixe de escutar
se não gostar do que estás dizendo.
Mas não vou te interromper.

Quando terminares tomarei minha decisão
sobre o que disseste, mas não te direi se não
estou de acordo a menos que seja importante.
Do contrário simplesmente ficarei calado
e me afastarei.
Terás dito o que preciso saber.
Não há mais nada a dizer.

Mas isso não é suficiente para a maioria de vocês.
Deveríamos pensar nas palavras
como se fossem sementes.
Deveriam plantá-las e permiti-las crescer em silêncio.
Nossos ancestrais nos ensinaram que
a terra está sempre nos falando e que devemos ficar em silêncio para escutá-la.
Existem muitas vozes além das nossas.
Muitas vozes.
Só vamos escutá-las em silêncio.
"Não sofremos de falta de comunicação
mas ao contrário sofremos com todas as forças
que nos obrigam a nos exprimir
quando não temos grande coisa a dizer".

(Sabedoria indígena)
Fonte: http://pensandozen.blogspot.com/

domingo, outubro 03, 2010

“Mãe, você vai pro cinema sozinha? Que coisa mais sem graça...”

Desde minha adolescência vou a cinemas sozinha. Era muito difícil arranjar companhia pra todos os filmes que eu queria ver. E, naquela época, eram quase todos mesmo. Os meninos ainda acham estranho, mas ninguém queria ver “Comer, rezar e amar” comigo. Ainda bem. Saí do cinema com a certeza de que, naquele momento, eu era a minha melhor companhia. Distribuía sorrisos, de tanta felicidade.
Tudo bem que tinha o Javier Bardem, impecável com uma aparência de bad boy e um jeitinho “mais doce impossível”. Mas não era por isso que eu sorria! O motivo era muito mais nobre, pelo menos pra mim. Ganhei o livro logo que ele foi publicado no Brasil. Durante a leitura, chorei muito. A identificação foi imediata, as angústias da escritora eram as minhas. A frase inicial do livro ecoava na minha cabeça. Não sabia quem era, o que queria, para onde ia... A única certeza que tinha é que havia algo errado e há muito tempo.
Ao ver o filme, não derramei uma lágrima. Cheguei a me entediar em alguns momentos e o que me fez chorar anos antes, agora me fazia rir. Pra quem chora com desenho animado, isso quer dizer muita coisa. Sorria ao perceber que aquelas páginas já tinham sido viradas, que eu já tinha respondido a muitas das perguntas que me torturavam à época em que li o livro. Precisei de um bom tempo pra adquirir a coragem de mudar, mas, depois que dei o primeiro passo, os outros foram acontecendo naturalmente. Como a autora, precisei de muita atitude, ajuda e compaixão.
Livro e filme fazem muito sucesso. Como eu, milhões de pessoas identificaram-se com a história, mas muitos ainda vão chorar com o filme. Acharão que aquela é uma realidade que não lhes pertence, coisa de cinema. Hoje eu sei que mudar é possível. Sair da zona da conforto para abandonar antigas estruturas, tem percalços, dificuldades, lágrimas, dúvidas; mas isso tudo é absolutamente NADA perto do prazer de recobrar a essência da própria vida. Não é por acaso que o funcionário do guarda-móveis onde a personagem deixa tudo o que é seu, antes da viagem que originou o livro, diz, diante do lamento de que toda a sua vida cabia em um pequeno depósito:
“Acredite, muitas pessoas jamais voltam pra pegar sua antiga vida de volta.”
Mudar não significa deixar de chorar. Pra mim, a cada dia aparecem novos desafios, desejos, a possibilidade de me acomodar. As questões que me aproximaram da autora, passaram! Em seu lugar, surgiram outras perguntas; mas surgiu, também, uma outra mulher e ela estava lá no cinema ontem, assistindo ao filme, muito orgulhosa de si. E feliz!

sábado, outubro 02, 2010

A mulher e o vestido

Viu o vestido na vitrine. Há muito tempo seus olhos não brilhavam assim. O corte, as cores... tudo parecia perfeito para ela. Ali, parada, perdeu a noção do tempo, observando cada linha, cada detalhe. Ele era longo, num tecido leve e esvoaçante, sem a cintura marcada, mas com um decote que deixava colo e ombros à vista. As cores? Havia todas, com nuances de laranja que ela adorava. Sentiria-se livre, linda, naquela roupa.
Havia muito tempo que não parava em frente a uma vitrine. Ultimamente, nada parecia ter muita graça. As cores eram iguais; as roupas, também. Entrava e saía das lojas que mais gostava e nada lhe agradava. Não que estivesse com dinheiro sobrando para gastar, mas testava-se. Queria saber se teria aquela vontade de vestir as roupas da moda, a paciência para experimentar no provador todas que poderiam lhe cair bem para, no final, comprar uma ou nenhuma. Passava pela lojas de sapato, seu ponto fraco. Afinal, sapatos não revelam gordurinhas indesejáveis, não evidenciam as marcas do tempo no corpo, parecem alheios às transformações da mulher. Talvez por isso não lhes resistisse. Mas nem eles seduziam-lhe.
Não gostava de sentir-se assim. Sabia que havia momentos da vida em que o recolhimento era necessário, um pouco de tristeza, inevitável; mas daí a deixar de perceber as cores da vida há grande distância. Por isso, encantara-se com o vestido. Encantava-se, na verdade, com o seu sentimento diante dele. Quem passava pela rua, via apenas mais uma mulher, entre tantas que param para olhar vitrines de lojas de roupas; mas, se olhasse bem, conseguiria captar algo mais: havia nela, naquele instante, um brilho que a diferenciava das demais.
Entrou na loja. A alegria e o encantamento eram tão seus que se contiveram elegantemente no íntimo da jovem senhora. A vendedora atendeu-a com simpatia e, quando perguntou se poderia ajudá-la com algo em especial, ela disfarçou. Fez de propósito. Queria usufruir mais desse sentimento, prolongá-lo o quanto pudesse. Talvez, ele estivesse inaugurando uma nova fase da sua vida. Disse que gostaria de olhar as araras e ficou o quanto quis admirando cada peça de roupa exposta. Algumas, tirava do cabide e colocava diante de si, olhava no espelho e pensava que nenhuma delas lhe ficaria tão bem quanto aquele vestido. Finalmente, tocou-o. Sentiu com os dedos a maciez da seda, imaginou-o no seu corpo. Pediu para experimentar, num tom de voz tão blasé que nem uma vendedora muito experiente poderia imaginar o que lhe ocorria.
Entrou na cabine com o vestido nas mãos, como se fosse ter um encontro secreto. Admirou-se no espelho. Gostava de seus ombros, definidos, abertos para o mundo. Imaginou-se com asas e voou por sua própria vida. Sentiu-se uma bela mulher. Sim, agora tinha certeza de que aquele vestido inaugurava uma nova fase. Era simbólico e caro. Aquela era uma das lojas mais caras da rua. Mas isso não era problema. O preço não importava. Tratava-se de uma grande conquista. Pediu que a vendedora fizesse um embrulho. A embalagem mais bonita que houvesse na loja. Era um presente para uma pessoa muito especial.

quarta-feira, setembro 29, 2010

Sentimentos, todos, têm nome?

Não sei se há sentimentos sem nome. Volta e meia me deparo com essas emoções estranhas. Não consigo nominá-las, mas, aos poucos, muito aos poucos mesmo, vou percebendo que não adianta fazer de conta que eu não as conheço. Se as digo irreconhecíveis é porque não as consigo suportar, ou aceitar. Finjo surpresa, compro livros explicativos, entabulo conversas sem fim sobre o que julgo ser o cerne da questão, levo pra terapia. Custo muito a admitir que o tempo todo estava mentindo, pra não ter que encarar a minha consciência e dizer a verdade para mim mesma.
Dizem que “a verdade dói”. Só não completam, com um “então, minta!” Mas nem precisa. É basicamente o que fazemos diante de sentimentos e emoções grandes demais para nossa condição humana. E não falo apenas do que leva a lágrimas inexplicáveis, mas também daquilo que enche a alma e remete-nos a um nível próximo do divino. Em ambos os casos, a falta de explicação é a melhor das explicações. Com ela, isentamo-nos da responsabilidade por estarmos tristes ou felizes demais. Melhor deixar pra lá!
Eu bem que tento, mas não consigo. Quando eu viro as costas a um sentimento e finjo ignorá-lo, ele não demora a me cutucar para lembrar-me de sua existência, dentro da minha própria. Isso tudo é pra dizer que ando às voltas com um desses. E posso garantir que isso não é bom. Choro, e não é de alegria. Tenho o desejo de abandono, mas não o endereço à vida, mas a mim mesma. Penso que ando me cansando de uma parte de mim que faz questão de não se ver, pelo simples medo da imagem não corresponder ao que esperava de si mesma.
Ainda bem que é só uma parte. Porque a outra está aqui teclando freneticamente, na tentativa de descobrir seus medos e tristezas. De discernir a respeito de si. E o mais importante: de ter a coragem simples de se olhar no espelho, seja em que momento for. Sem nome, nada! Meus sentimentos todos têm nome e sobrenome. Se eu faço questão de esconder isso até mesmo de mim, problema meu. Mais cedo ou mais tarde, há portas que se abrem e revelam tudo o que há pra ser revelado, sem se importar com a repercussão. A verdade dói mesmo. Mas tem que ser dita, doa a quem doer, também dizem por aí. E, essa dor, no caso, é minha mesmo. E foi-se. Aborrecida com o espelho em que resolvi me mirar.

domingo, setembro 26, 2010

Uma música? Um mágica?

Foi aquela música. Bastou escutá-la, ainda que na qualidade ruim de um celular, num momento em que estava receptiva a tudo o que o Universo poderia lhe conceder, para mergulhar fundo em si mesma. Às vezes, ela se surpreendia com a capacidade dos seres humanos de se afetarem mutuamente. Ninguém passa pela vida de alguém despercebido. Seja qual for a relação, há uma interação. Percebia o quanto era capaz de impactar a vida das pessoas através de gestos tão simples quanto um olhar, um toque ou uma palavra. Naquele momento, seu corpo tremia e sua mente entorpecia pela música de um celular.
Não acreditava que ela tivesse surgido ao acaso. Imaginava que devia haver algum maestro da vida direcionando situações como essas. O fato é que ela estava com o coração tão aberto que o som passeou dentro dela e conduziu-a um encontro profundo consigo. De repente, ela estava ali, chorando ao lado dele, sem conseguir explicar porque. Embaraçava-se mais em seus pensamentos do que pela presença do outro.
Aquele estava longe de ser um encontro casual. Havia algo de mágico no ar e o enlace das ideias permitiu que ela compartilhasse uma visão singular de si, nova até mesmo para sua mente consciente. Acreditava em momentos poderosos e fantásticos. Aquele era, sem dúvida, um desses momentos: estava envolta por uma energia transformadora e muito amorosa, saboreando da generosidade do Universo em sua inesgotável fonte. Foi isso que lhe permitiu dar-se conta de uma parte importante da sua vida. Tinha a sua chance de mudar. Percebia-se outra mulher. O seu choro foi acolhido; sua viagem interior, compartilhada. Tinha a certeza de que aquele instante ficaria registrado na eternidade.

domingo, setembro 19, 2010

Desabafo de mãe

Quem faz terapia acaba se deparando com a mãe. No relacionamento com a mãe, dizem os terapeutas (e eu acredito), residem grande parte das neuroses e conflitos humanos. Mesmo sabendo disso, no entanto, não há muito o que fazer. Nós, mães, acabamos repetindo erros e cometendo outros que nossas mães não cometeram porque não conseguimos fazer diferente. Temos nossas limitações, atenuadas aqui e ali com terapias, rezas, simpatias e o que mais se acreditar capaz de nos ajudar a sermos pessoas (e mães) melhores.
Por isso mesmo, ontem, quando meu filho do meio, que havia passado o dia com mal estar, disse pra mim que eu quase não o via, eu respondi (quase) sem culpa: “vejo-o tanto quanto posso. Pode ter certeza de que passo com você o maior tempo que consigo. Pode ser pouco, mas não tenho conseguido fazer muito melhor”. Esse mesmo filho havia pedido que visse um filme com ele, já que estava doente. Também pediu-me remédio, espaço em minha cama, a compra da passagem do próximo torneio de tênis, água de coco porque havia ficado o dia inteiro sem comer, cafuné e carinho. Eu tinha um trabalho pra fazer, que havia adiado durante a semana e que preciso entregar na segunda-feira, mas aquiesci. É bom estar com os filhos e trocar demonstrações de carinho.
Mas a gota d'água foi escutar dele: “mãe, você tá muito gordinha. Está há quatro ou cinco dias sem caminhar. Queria que você ficasse forte de novo e magrinha”. Pronto, minha vontade foi de desabar! Expliquei que estava trabalhando muito porque nossas despesas aumentaram bastante e que, além disso, estava fazendo cursos, o que me fazia chegar em casa esgotada e sem nenhuma vontade de “malhar”. Mas a explicação não foi suficiente para aplacar em mim o sentimento de “não dou conta”. Durante todo o dia havia ficado com o filho mais novo em uma feijoada para angariar fundos para o seu time de futebol, onde aproveitei para encontrar uma amiga da faculdade com sua família, que não via há muito tempo; conhecer as mães dos outros atletas e “enfiar o pé na jaca”.
Durante o dia recebi três telefonemas de amigos diferentes que estão passando por problemas sérios em suas vidas e precisavam desabafar. Mesmo sem saber sempre o que dizer, sei que ouvir e dizer que faço parte de suas vidas em momentos difíceis faz a diferença nessas horas. Já recebi essa ajuda, era chegada a hora de retribuir. Não havia como somar todas essas variáveis sem chegar à conclusão de que realmente não dou conta. Ou dou, com restrições, alguma culpa e um pouco de frustração por não manter o corpo em forma e passar menos tempo do que gostaria com os meninos.
É um post-desabafo! Quem sabe agravado pelas variações de humor de que fico refém no período pré-menstrual! Ainda tem isso: a TPM. Não devo ser mesmo mãe de três filhos por acaso. Somos desafios, uns para os outros.
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