sábado, junho 19, 2010

Não entendo nada de amor

Tenho uma amiga que ficou em choque ao descobrir que o marido estava apaixonado por outra mulher. Perguntou, com mágoa, por que ele continuou a dizer-lhe “eu te amo”, depois de se descobrir apaixonado por outra pessoa. A resposta magoou-a ainda mais: “É a força do hábito. Me acostumei”. Será que amar é uma questão de costume? A rotina cansa, mas tem seus benefícios: não há que se ter medo do novo ou da surpresa. Tem-se a impressão, por vezes falsa, de que tudo está no lugar.
E o amor? Quando sinto falta de alguém, estou querendo de volta minha área de conforto e querendo me livrar dos riscos das surpresas do novo? Quando digo “eu te amo”, após anos de relacionamento, faço-o porque sinto assim ou porque me acostumei a proferir essas palavras? Não sei a resposta a essas perguntas, até porque acho que cada pessoas poderá respondê-las de um jeito diferente; mas acredito que o amor pressuponha algo mais que o hábito. O simples fato de dizer “eu te amo” pode, então, não significar muita coisa para aqueles que têm uma forte tendência de entrar no piloto automático.
Pensando bem, o amor tem um pouco de hábito e costume, sim. E cresce com o tempo. Mas ele também tem a ver com a surpresa de descobrir ou redescobrir no ser amado algo que não se conhecia. Tem a ver com a atenção que chega naquele momento em que não se esperava apoio algum, com o silêncio da discordância que não dispensa o acolhimento e a aceitação, com a busca por afinidades que já não se acreditava possíveis, com a paciência de ouvir e de abraçar as diferenças, com o compartilhar das histórias pessoais, com a coragem de despir a alma, com a capacidade de falar quando se quer calar e de compreender o silêncio quando se quer ouvir um discurso. E nada disso insere-se no automático. Porque a vida é cheia de supresas e imprevistos, por mais que busquemos o conforto da rotina. E o amor sabe lidar com esses percalços.
De repente me dou conta que não dá para tentar explicar o amor. Amar não tem regras mesmo e cada pessoa descobre (ou redescobre) o amor a sua própria maneira e, por vezes, de formas surpreendentes e inesperadas. Se eu disser que amar requer tempo, vou contradizer aqueles que se descobriram amantes no primeiro encontro, há cerca de 40 anos (conheço um casal assim). E o contrário também é verdadeiro, porque conheço casais que, juntos há muitos anos, descobriram que nunca compartilharam um amor pleno.
E o hábito? Bom, acho que ele é perigoso, mas o amor também necessita de cuidados regulares de todos os lados pra persistir ante as vicissitudes a que está sujeito. Então, nesse sentido, beneficia-se da rotina. No entanto, inserido no perfeito ritmo da vida, desenquadra-se constantemente porque não há força ou teimosia que possa padronizar esse ritmo, e aí coloca à prova todos os sentimentos, com novas demandas que nos fazem refletir se, de fato, amamos ou nos acostumamos a dizer que amamos.

4 comentários:

HM disse...

A frase (eu te amo) é um significante Aí está (ou pode estar) a bruma do hábito, o vício impostor, a fala sem sentimento, o amor sem amor.
A retina colhe fragmentos do real, a rotina recolhe as migalhas dosurreal empobrecimeto de afetos, não pela ação do tempo, mas pelo pouco tempo que dedicamos à reconquista, à renovação de elos, de alento para o que, talvez, um dia já foi tão bonito.
Amamos ou "armamos"? Não depende do dito, mas do feito, vai além do mito, tem tudo a ver com o ...jeito!!
Abraço!!

Carla Vergara disse...

Lindo texto! O amor é sempre um grande tema, sobre o qual não nos cansamos de questionar. Beijos

Mônica disse...

Não há jeito de aprender que não seja pelo fazer. Amemos muito, pois. Lembrei da música: "qualquer maneira de amor vale amar..."

Patrícia Gonçalves disse...

Amar, amar mesmo, pressupõe uma eterna reconquista. Somente consigo ver uma rotina positiva neste aspecto, a rotineira reconquista do ser amado.

beijo

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