sábado, abril 10, 2010

"500 dias com ela" ou muitos dias com nós mesmos

Acabo de ver “500 dias com ela”. Achei que o filme inofensivo não atrapalharia meu sono. Enganei-me: não consigo dormir. Não entendo como aconteceu de eu ver esse filme no mesmo dia em que comprei um livrinho chamado “Homem Cobra, Mulher Polvo”. Comecei e terminei de ler o livro, e vi o filme em uma só tarde/noite. Depois dessa overdose de diferenças entre homens e mulheres, desencontros entre expectativas e realidades, encontro-me imersa em palavras como conflitos, desejos, destinos, coincidências, sincronias, verdades, mentiras, sentimentos. E aí escrever é o único remédio.
Rejeito rótulos com veemência, mas, paradoxalmente, sempre procurei viver de acordo com eles. E não posso dizer que não trazem felicidade. Hoje, acho que tudo é uma questão de escolha. Há pessoas que precisam de etiquetas para serem felizes; outras, não. Não há certo e errado. Quando acabei de ler o livro que classifica homens como cobras e mulheres como polvos, de forma superficial e, às vezes, engraçada, pensei nos meninos-homens-cobras que crescem à minha volta. Há fatos incontestáveis: tenho dificuldades em aceitar que eles têm que fazer uma coisa de cada vez, que não conseguem escutar o que falo se estiverem com a atenção em outra coisa e que exigem de mim que eu escute tudo o que falam quando estou lendo ou ao telefone (instintivamente sabem que eu sou polvo). E é óbvio que eu também os desagrado quando vou comprar um coisinha ali no shopping (destestam me acompanhar) ou quando vou deixar um deles na casa do amigo e, no caminho, entrego o livro emprestado da vizinha, passo no banco, no mercado e na farmácia. “Mas você não disse que ia só me levar na casa do fulano?” Eu respondo: “O que custa aproveitar que estamos no caminho pra fazer outras coisas?”
Mesmo diante dos fatos, vejo além das etiquetas. Vejo cada vez mais homens cruzando fronteiras e superando seus limites (e mulheres fazendo o mesmo). Não os meus cobrinhas, que ainda não têm a consciência de que essas diferenças existem, apenas intuem e agem por instinto. No entanto, pode ser que, mais maduros, sigam o exemplo de outros tantos cobras e, por vontade própria ou impelidos pelas demandas de outrém, percebam e compreendam as diferenças inerentes a cada gênero e procurem ir além na delicada zona dos relacionamentos. Afinal, já começaram a fazer isso em tantas outras área da vida. Superação e inovação parecem estar no DNA da geração dos meus meninos.
Mas o fato de ter visto hoje esse filme, que já peguei umas 10 vezes na locadora sem trazer pra casa, continua a me intrigar. Depois de ler o livro, relembrando rótulos biológicos e sociais que colocam mulheres na posição de caça e homens, na de caçador, fiquei com vontade de rejeitar alguns deles. E aí, vejo um filme em que, muitas vezes, os papéis estão invertidos, na forma como os conhecemos: o homem, por exemplo, sonha com uma relação estável e etiquetada, enquanto a mulher avisa tratar-se de um boa relação casual. Eis que, o que parecia ser uma quebra de paradigmas, enquadra-se, no final, quando a mulher decide render-se à formalidade de uma relação, só que com outra pessoa. Lembrei da Quadrilha, de Drummond, e fiquei me perguntando se é possível quebrar paradigmas tão fortes.
Também lembrei de algumas coisas que me parecem bem importantes no desenvolvimento dessa arte de se relacionar, com ou sem etiquetas, e resolvi listar:
1 – PRESENTE - Não há como ser feliz pensando no passado ou no futuro. Nada acontece nesses momentos. Tudo o que podemos desfrutar está no presente e é a ele que devemos nos ater, procurando estar presentes, aconteça o que acontecer.
2 – SENTIMENTOS - Ninguém pode saber o que está dentro do nosso coração e de nossa mente. Precisamos falar mais. Dizer o que sentimos, o que desejamos e o que pensamos. Isso vale especialmente para nós, mulheres, que temos uma imensa necessidade de falar. Algumas usam de eufemismos ou de artifícios como choros, caretas e indiretas. Acho que não é o melhor caminho. Quanto mais claras conseguimos ser, mais felizes ficamos conosco e mais chances temos de sermos compreendidas.
3 – FIDELIDADE - Nem sempre ousamos dizer em que acreditamos e o que queremos, acreditando que, se nos trairmos, estaremos contribuindo pra felicidade geral, inclusive a nossa mesma. Isso não funciona. Mais cedo ou mais tarde nos cobramos todas as vezes em que nos engamos e fazemos isso com juros e correções. Sejamos fiéis, portanto, a nós mesmos!
4 – EMPATIA – Quando me coloco no lugar do outro, sou capaz de compreendê-lo. É isso que eu preciso aprender a fazer com os meus cobrinhas. Ao invés de apontar as diferenças que existem entre eles e eu (a mãe), posso me colocar no lugar deles e procurar sentir o que sentem diante de uma criatura que vive sob comando de hormônios, com um humor que varia a cada semana. Assim, consigo respeitá-los e criar um espaço de convivência mais harmonioso.
5 – OUVIR – A gente mal escuta palavras, o que não dizer dos silêncios? Homens, por exemplo, não falam tanto, mas emitem sinais o tempo todo. Com atenção e disponibilidade, pode-se ouvir o audível e o inaudível.

Há muito mais, mas já consigo dormir. Reconhecer que há e sempre haverá muito o que descobrir nesse mundo cheio de rótulos me apazigua. Ainda que novas descobertas corram o risco de virar padrões, sempre haverá o novo. O mundo não para mesmo e viver ou não de acordo com os padrões já catalogados é uma questão de escolha. Quem sabe, também, de destino?

* Homem Cobra, Mulher Polvo é de autoria de Içami Tiba.
* 500 dias sem ela - Veja o trailer

Um comentário:

Sandra disse...

( : A.M.E.I. : )

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