terça-feira, maio 04, 2010

Passagem estreita

“Sua vida está ficando estreita”. Tenho escutado essa frase com alguma frequencia, mas não havia me dado conta do que ela significa de fato. Mas acabo de me lembrar do nascituro, já encaixado no ventre da mãe, próximo daquele que será o canal mais estreito porque passará em sua nova vida. Preparado para a passagem, espreme-se, enquanto o canal se abre como pode, num esforço conjunto e extremo, até que desponte para vida. Eu, apesar de mãe de três, sempre acho que o nascimento é um milagre. Choro e dor fazem parte do processo, mas são relegados ao esquecimento pela alegria que se segue. E se alegria pudesse ser catalogada em tipos, esta seria a mais pura, abundante e plena que conheço.
Ainda não descobri se minha vida está ficando, de fato, estreita. Mas, se for verdade, talvez seja um bom sinal. Devo estar como o nascituro, próxima de algo que se assemelha ao canal por onde se contorce o bebê. Pensando bem, tenho feito o que posso, mas a sensação é mesmo de desconforto. E voltar atrás não é uma opção possível. A vida, como o corpo da mãe, também faz seus movimentos e, uma vez iniciado o processo de nascimento, a única opção é seguir em frente. À mãe, resta parir. Ao nascituro, nascer. Abandona o conforto do útero para descobrir o novo e crescer.
Não sei se é possível passar pela vida sem reproduzir esse movimento que inagurou nossa existência. Ao me dar conta de que estou no meio dele, choro, mas também recebo o alento da alegria que se sucederá. A verdade é que tenho medo. Não sei o que encontrarei após a “passagem estreita”. Acho que nunca se sabe. O bebê se supreende tanto com o mundo que encontra que chora. E é um choro tão bem-vindo que, quando não acontece, o médico providencia para que o faça. É preciso chorar ao nascer.
E agora me deu um baita frio na barriga. Porque me dou conta de que ninguém tem certeza do que está do outro lado. E de que esse movimento da vida, o de crescer, não é fácil. Há muito pra enfrentar. Por instantes, penso em voltar. Mas não há volta. Então, lembro-me de novo do nascimento para me confortar: quando a termo, a vida morre se não sair do útero materno. Então, a passagem estreita é meu movimento de vida. Assim sendo, em breve, estarei abrindo os pulmões prum novo respirar.
** Também sobre transformação:
Tem que morrer pra germinar
Bem-vindas borboletas

Um comentário:

Sandra disse...

Ai, me vi neste texto!!! Bj

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