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quarta-feira, junho 08, 2016

Perdão!

Violência contra mulheres me toca, me choca. Sinto-me mal até quando acontece na ficção. Dói a minha alma. Sei que uma mulher comum como eu não consegue se desvencilhar facilmente de um homem. E isso falando da força física, porque em outros âmbitos há outros tipos de agressões que mulheres sofrem todos os dias e que também doem na alma, ainda que seja aos poucos, ainda que poucas se deem conta. Desabafo assim, porque desde o dia em que soube do estupro coletivo que aconteceu no Rio, o tema não sai da minha cabeça.
Sinto muito pela menina e pela violência que sofreu. Mas sinto muito pelos meninos-homens também, e chego a me culpar por sentir isso. Sou mãe e muitos daqueles meninos poderiam ser meus filhos. Tenho uma compaixão profunda desses que certamente não nasceram monstros. Hoje, alguns deles seriam capazes de cometer atrocidades que eu sequer ouso imaginar, mas são seres humanos. Como eu. Sinto amor e compaixão por esses jovens, que a nossa sociedade relegou à margem. Que eu, de alguma forma, também contribuí para marginalizar.
Seria mais fácil se eu conseguisse me imaginar diferente deles. Eles e eu. Mas não consigo. Sou tão parte disso tudo que tenho evitado os jornais para não me doer ainda mais. Tento fugir dessa realidade que abomino. Quero construir outra realidade, mas não dá para fazer isso mantendo meus olhos fechados a esse lado obscuro. Peço perdão a essa menina e a esses meninos-homens. Nenhum deles deveria estar em meio ao tráfico, às drogas, aos abusos sexuais, à falta de oportunidades e a tantas outras perversões sociais.
Neste momento, penso em formas de substituir essa culpa improdutiva que sinto - que quase me fez apagar esse post – por ações possíveis, capazes de fazer alguma diferença na vida de algum jovem. Eu continuo com a crença de que posso mudar o mundo… Se eu conseguir ignorar as vozes que dizem que isso não depende de mim e que o mal é tão grande que não pode ser combatido.

segunda-feira, setembro 26, 2011

O Sagrado Feminino e o Sagrado Masculino

Feminino e Masculino: divindades complementares
Um círculo de mulheres é uma experiência única e já escrevi sobre isso aqui. Acredito na força e na energia que emana de um grupo feminino. Depois de cerca de seis anos de reuniões mensais, o Círculo da Lua Nova, que visito esporadicamente, sentiu-se convidado a integrar o masculino em suas atividades, transformando-se em um grupo misto. Confesso que, naquele momento, não gostei muito da ideia, porque acho que ainda há muito o que desenvolver dentro desse universo do sagrado feminino, mas esta semana fui obrigada a rever meus conceitos.
Revivi essa questão quando me dei conta de que tive uma boa experiência nesse percurso do que é ser mãe, que registrei aqui, e do quanto o comentário de um homem me ajudou nesse processo. Justo naquele quesito em que imaginava que nenhum homem jamais pudesse me ajudar: o exercício da maternidade. Quando me dei conta de que a experiência do masculino integrara-se a minha para me propiciar uma nova visão diante de um contexto onde precisava atuar, qual seja, uma nova estrutura familiar, só pude sentir gratidão.
Fiquei mais surpresa ainda ao conversar com uma amiga e ouvir dela o quanto ela havia sido beneficiada na relação com a filha por um simples comentário também masculino. Tive que recuar para observar e fui visitar o Círculo da Lua Nova, neste fim de semana, onde encontrei dois homens: a energia continua sendo majoritariamente feminina. Mas é incontestável que, cada vez mais, a complementaridade das energias é o caminho do fortalecimento de ambas as polaridades.
Há muita coisa nova acontecendo no Universo, e mesmo aqueles que não buscam sintonias mais profundas com os mistérios que regem a Terra, percebem que há algo de diferente no ar. Neste cenário, não cabe mais a valorização exclusiva do sagrado feminino. Como mulher, contenho o mundo em mim, mas jamais serei capaz de me realizar plenamente sem a complementaridade essencial do masculino, que, hoje, vejo igualmente sagrado.
Em meio a tantas distorções sociais e culturais, ambos – homens e mulheres – desconectaram-se de suas essências. Não existem mais vítimas e algozes. Estamos todos juntos, como sempre estivemos, em busca dessa união sagrada e divina que é nosso maior propósito. Não se vive só e, ainda que sejamos centelhas de Deus, precisamos e precisaremos sempre do outro para exercer nossa divindade. Enquanto nos colocarmos em lados opostos, como num ringue, essa preciosa união não acontecerá. Quando integramos a sabedoria tão diversa de ambas as polaridades, ficamos mais fortes e aptos para essa jornada de desenvolvimento e amor. Estou certa de que está aqui – na INTEGRAÇÃO – o caminho para amenizar os tantos desencontros de si e do outro que presenciamos em nosso mundo moderno. E isso só conseguiremos exercitando a nossa habilidade mais grandiosa: a de AMAR!

terça-feira, setembro 06, 2011

Ciclos de mulher

Do meu jardim: símbolo de mulher
Tudo era novo! Mas nem tanto! A vida repete-se em ciclos até que cada um deles seja consumado e dê lugar a um outro ciclo. De repente, estava diante de um sentimento tão novo e ao mesmo tempo tão antigo. Voltei no tempo. Quem estava ali não era só a mulher, mas, também a menina. Encontraram-se as duas, assustadas pelo tempo passado, pelo inusitado do encontro e pelo estranhamento com que se encaravam. Pensavam existirem por si só e seguiam alheias uma à outra. Que engano! Mal sabiam(os), mulher e menina, que não sobreviveremos uma à outra, mas coexistiremos sempre.
Desejos de mulher e medos de menina foram apenas algumas das emoções a serem conciliadas nesse encontro. Receios, ansiedades, inseguranças da menina, presentes em desejos, sonhos, conquistas da mulher. Tudo se repetia, mas, desta vez, havia a mulher para dar conta desse revival de sentimentos. Estava tudo lá, em registros antigos, do tempo em que só a menina existia. Uma ou outra rejeição na escola, o primeiro amor (ou o que ela pensava ser amor), a melhor amiga, os amigos do clube, as pernas finas, o corpo magro diante de algumas amigas que mais cedo tinham peitos e bundas... Tudo isso e muito mais vinham à tona.
Depois de se olharem muito, ambas deram a mão. Desta feita, a menina não estava sozinha. Havia como passar pelas emoções de uma outra forma. Já não havia menina, nem mulher. Fundiram-se em uma menina-mulher, acolhendo-se mutuamente. Finalmente, eram apenas uma! A menina-mulher começou, então, uma nova jornada, olhando com carinho suas experiências, acertos e desacertos, medos e tantas outras emoções. Tudo merecia seu lugar, dentro deste novo ser. O mundo lhe cabia e ela cabia nele! Foi aceitando cada sentimento com que se deparava. Agradecia a possibilidade, agora, de reviver, acolher e curar. Liberava-se assim, para novas experiências, para um novo caminho, só seu: aquele que sempre soubera que um dia trilharia!

domingo, agosto 07, 2011

Amor em gotas

As lágrimas escorriam. Eu não conseguia saber exatamente porque. Não eram lágrimas de hoje ou de ontem, mas de muitos, muitos anos atrás. De gerações anteriores, talvez. Pensei em tantas outras mulheres, companheiras do hoje e ancestrais dos tempos mais remotos. As lágrimas eram de todas nós. Não havia culpados, mas assim mesmo eu precisava me perdoar. Era o melhor que podia fazer por mim. Perdoar a mim, pedir perdão ao outro. Fazer diferente de tudo o que me ensinaram ao longo desta existência. O que eu queria era acessar um conhecimento adormecido há séculos, e que, naquele momento, seria curativo e um grande mentor.
Do que estou falando? De relacionamentos: a maior oportunidade que o Universo nos concede de evolução. Em se tratando de homens e mulheres, muitos de nós estamos ainda no primitivismo. Imersos em carências e padrões, esquecendo o tempo todo que, se a razão nos diferencia de todas as demais espécies, é a capacidade de amar que nos iguala, e que a junção dos dois nos torna singulares.
Está certo que não é fácil. Homens caçam, mulheres cuidam. Homens focam e lançam setas ao alvo, mulheres espalham-se e multiplicam-se. Homens ejaculam, mulheres acolhem. E sempre foi assim, certo? Talvez. Se os papéis se misturaram em relação a todas as atividades, em relação à biologia humana, mulheres continuam acolhendo, parindo, amamentando, pelo menos até onde eu sei. Porque nunca se sabe quão longe a ciência pode nos levar. Pode ser que, por isso mesmo, continuemos acreditando em histórias de que deveríamos desconfiar, esperando telefones tocarem, querendo ser carregadas no colo.
As lágrimas continuavam a escorrer. Não escolho mais caminhos fáceis. Se há a oportunidade de aprender, eu me entrego e sigo em frente. Não quero a experiência de ontem, quero o resgate do essencial, do que existe de mais humano e genuíno em todos nós. Quero o amor, que começa dentro de mim. E isso me parece ao mesmo tempo tão ancestral e futurista. De repente, paro de chorar. Escrever é minha cura, e amar é meu dom. A energia que me chega é tão intensa que sorrio, como que em meio a uma chuva de pétalas rosas. Na cama em que escrevo, elas caem apenas sobre mim, enviadas pela generosidade do Universo. Tenho muito a aprender, lágrimas pra derramar, mas uma infinita capacidade de amar.
Não sou de muitas regras, que não aquelas que sinto no meu coração: este centro de força – localizado no centro de peito. Ele me restaura, me energiza, me transborda. É ele quem me comanda agora e me transporta, como num filme de ficção, a um lugar tão sereno e amoroso que as lágrimas escorrem novamente. Choro, de gratidão e amor. Experimento extremos na loucura mais saudável que o ser humano pode ter: a de amar. Sinto-me curada e em profunda paz. Transbordo de amor infinito e, em unidade com muitas outras mulheres, seco as lágrimas de tantas outras que amanheceram com os olhos inundados porque esqueceram que, acima de tudo, está o seu dom de amar. E que este dom começa dentro de cada uma de nós estendendo-se ao infinito, resgatando gerações passadas e futuras.

domingo, março 27, 2011

Na roda das saias

Sempre associei calças compridas a tempo frio. Era a roupa que usava nos dias em que era preciso agasalhar as pernas e, mesmo nesse caso, vestia com moderação. Gostava mesmo é dos shorts e mais ainda das saias. Na minha adolescência, tinha uma vizinha que havia morado parte do tempo em São Paulo. Ela, sim, usava calças em todas as estações: dizia que havia se habituado. Eu não: sempre que podia estava com as pernas de fora.
Saias pra todos os estilos
No entanto, não posso deixar de concordar com a praticidade das calças compridas: levam-nos à qualquer lugar, com a blusa escolhida dando o tom, e sem riscos. Assim, me esqueci do calor e, sem perceber, deixei as saias de lado. As reuniões eram sempre em calças e os vestidos viraram peças raras no guarda-roupa. Os shorts apareciam em casa e nos passeios mais informais, nos dias de muito calor.
Esse preâmbulo todo é pra dizer que, revisando a vida, acabei revisando, também, o guarda-roupa. Na tentativa de resgatar minha essência, senti falta das saias. Há povos ancestrais que dizem que a vestimenta honra a natureza de cada um e que as saias, com sua roda, além de uma representação do feminino, aumentam a conexão com essa energia sagrada. Fui comprando saias e o resultado é que, semana passada, com a queda da temperatura, descobri que não vestia uma calça há, pelo menos, três meses. Até os shorts estão perdendo espaço para as saias no meu dia-a-dia. E as saias têm mesmo algum poder, além do óbvio conforto, sinto-me muito mais feminina e conectada a mim mesma.
De repente, me dei conta de quão fácil é automatizar tudo na vida, incluindo aquilo que deveria ser uma forma de expressão de quem somos: a roupa. Quando consigo sair do automático e fazer de cada momento um instante sagrado, posso tornar o vestir uma forma de aprender mais sobre mim, de comunicar quem eu sou, aos outros e, principalmente, a mim mesma. Se o meu guarda-roupa não me traduz, posso revisá-lo sempre que julgar necessário, e assim estarei me revisando, conectando-me aos desejos, às forças, aos medos e a tantos outros sentimentos que me compõem.

sábado, março 19, 2011

Sexo santo

Fiquei assustada com a matéria que li em O Globo, intitulada Namoro Santo, que trata de um movimento (será isso mesmo?) que estimula as pessoas a deixarem o sexo para depois do casamento em prol de relações mais felizes e estáveis. Há o caso do rapaz que não beija a namorada na boca para “não esquentar em baixo”, da profissional liberal de 29 anos que mantém sua virgindade como um troféu e da ex-atriz que, há oito anos sem namorar, diz que só vai ter vida sexual novamente após um novo casamento.
Fui criada para casar virgem, em uma família católica que ensinou-me a ver o sexo como tabu: fora do casamento, uma transa era considerada pecado. Percorri um longo caminho para ficar de bem com a minha sexualidade. E ainda não coloquei ponto final nessa história porque acho que o caminho do corpo, assim como o do espírito, é contínuo. A conquista do respeito ao próprio corpo passa pelo respeito ao corpo do outro, e o conhecimento de si mesmo permite maior conhecimento do corpo físico. E, pelo pouco que sei, essa jornada acompanha toda a existência, desde a primeira percepção que adquirimos de nós mesmos, ainda na primeira infância.
Por isso fico assustada com os extremos, tanto daqueles que optam por banalizar o sexo quanto dos que tentam enquadrá-lo em padrões rígidos. Respeito todas as opiniões, sei o que desejo pra mim, mas lamento que uma das maiores fontes de prazer, realização e equilíbrio para nós, humanos, ainda seja tratado como tabu. Pergunto-me se um movimento pelo sexo santo, não traria mais resultados à humanidade. Imagino quanta energia densa seria dissolvida se mais pessoas fizessem do sexo um meio para relações mais plenas consigo e com o outro, valendo-se desse maravilhoso recurso para enriquecimento do processo evolutivo que todos nós, independente de escolhas e crenças, temos a cumprir na Terra.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Amor para sempre?

De repente, sentiu-se com 15 anos. Lembrou-se do primeiro namorado. Das frases que copiava em seu diário descrevendo o amor. Uma delas, vinda dos cartões com que perdia horas nas papelarias, era particularmente inesquecível: “o amor nunca se acaba”. Várias vezes havia jurado que era para sempre e o mesmo número de vezes vira o fim “do amor que nunca se acaba”. A lembrança transformou suas lágrimas em sorriso. Naquela época, achava que amar era prometer que ficariam juntos para sempre, com o coração descompassado e as pernas bambas de emoção, trocando declarações e juras eternamente.
Tantos anos haviam se passado e ela continuava sem saber o que era o amor. A diferença era que agora podia senti-lo e ele não se parecia em nada com aquele que povoara seus sonhos de adolescente. Na Bíblia, que lera e relera na sua juventude, estava escrito: “No princípio, era o verbo...” É a descrição do amor. Não existe força mais milagrosa ou sentimento mais pleno do que esse que simplesmente é.
Olhou-se no espelho, entre as lágrimas, sorria. Lembrou-se de agradecer com muita reverência ao Amor Supremo, que chamava de Deus. Sabia que fora agraciada com o dom de amar, que havia sido cuidadosamente despertado. Não precisava de mais. Ou melhor, precisava aceitar e agradecer pelo presente que podia carregar consigo – agora, sim – para sempre!
Quanto ao homem, pouco lhe importava onde estava, o que fazia, se ficaria por perto ou não. Em seu íntimo, sentia que essa força também o transformava e que ele, a seu modo, também aprendera muito com ela sobre o amor. Ambos haviam se tornado guardiões dessa força cósmica, além de divulgadores ou multiplicadores. Não sei ao certo, mas, por onde andavam, emanavam essa energia que despertavam um no outro. “Acreditem, ele existe e é poderoso!” poderia ser uma frase comum – ainda que cliché - no discurso de ambos, se eles aceitassem...
A verdade, e eu digo isso porque, estando de fora, pude observá-los com imparcialidade. Nenhum deles compreendia, de fato, esse amar. Era como se, por inexplicável que fosse, o sentimento não fizesse sentido. Perdiam-se ao tentar racionalizar, explicar e compreender; essa energia que haviam despertado estava além disso tudo. Simplesmente era.

sábado, outubro 02, 2010

A mulher e o vestido

Viu o vestido na vitrine. Há muito tempo seus olhos não brilhavam assim. O corte, as cores... tudo parecia perfeito para ela. Ali, parada, perdeu a noção do tempo, observando cada linha, cada detalhe. Ele era longo, num tecido leve e esvoaçante, sem a cintura marcada, mas com um decote que deixava colo e ombros à vista. As cores? Havia todas, com nuances de laranja que ela adorava. Sentiria-se livre, linda, naquela roupa.
Havia muito tempo que não parava em frente a uma vitrine. Ultimamente, nada parecia ter muita graça. As cores eram iguais; as roupas, também. Entrava e saía das lojas que mais gostava e nada lhe agradava. Não que estivesse com dinheiro sobrando para gastar, mas testava-se. Queria saber se teria aquela vontade de vestir as roupas da moda, a paciência para experimentar no provador todas que poderiam lhe cair bem para, no final, comprar uma ou nenhuma. Passava pela lojas de sapato, seu ponto fraco. Afinal, sapatos não revelam gordurinhas indesejáveis, não evidenciam as marcas do tempo no corpo, parecem alheios às transformações da mulher. Talvez por isso não lhes resistisse. Mas nem eles seduziam-lhe.
Não gostava de sentir-se assim. Sabia que havia momentos da vida em que o recolhimento era necessário, um pouco de tristeza, inevitável; mas daí a deixar de perceber as cores da vida há grande distância. Por isso, encantara-se com o vestido. Encantava-se, na verdade, com o seu sentimento diante dele. Quem passava pela rua, via apenas mais uma mulher, entre tantas que param para olhar vitrines de lojas de roupas; mas, se olhasse bem, conseguiria captar algo mais: havia nela, naquele instante, um brilho que a diferenciava das demais.
Entrou na loja. A alegria e o encantamento eram tão seus que se contiveram elegantemente no íntimo da jovem senhora. A vendedora atendeu-a com simpatia e, quando perguntou se poderia ajudá-la com algo em especial, ela disfarçou. Fez de propósito. Queria usufruir mais desse sentimento, prolongá-lo o quanto pudesse. Talvez, ele estivesse inaugurando uma nova fase da sua vida. Disse que gostaria de olhar as araras e ficou o quanto quis admirando cada peça de roupa exposta. Algumas, tirava do cabide e colocava diante de si, olhava no espelho e pensava que nenhuma delas lhe ficaria tão bem quanto aquele vestido. Finalmente, tocou-o. Sentiu com os dedos a maciez da seda, imaginou-o no seu corpo. Pediu para experimentar, num tom de voz tão blasé que nem uma vendedora muito experiente poderia imaginar o que lhe ocorria.
Entrou na cabine com o vestido nas mãos, como se fosse ter um encontro secreto. Admirou-se no espelho. Gostava de seus ombros, definidos, abertos para o mundo. Imaginou-se com asas e voou por sua própria vida. Sentiu-se uma bela mulher. Sim, agora tinha certeza de que aquele vestido inaugurava uma nova fase. Era simbólico e caro. Aquela era uma das lojas mais caras da rua. Mas isso não era problema. O preço não importava. Tratava-se de uma grande conquista. Pediu que a vendedora fizesse um embrulho. A embalagem mais bonita que houvesse na loja. Era um presente para uma pessoa muito especial.

sábado, setembro 18, 2010

Que diferença da mulher o homem tem?

A música de Durval Vieira é antiga e anuncia: “Se for reparar direito, tem pouquinha diferença...”. Lendo os últimos posts, um amigo sugeriu que investigasse mais o universo masculino. Não entendi muito bem o que ele quis dizer com isso, mas, com certeza, tenho muito o que aprender sobre essa parte da vida. Não deve haver outra razão para que uma mulher seja mãe de três homens, senão a de entender melhor sua natureza. Confesso minha ignorância sem pudor, mas, de cara, rejeito os rótulos. A batalha dos sexos chegou ao fim e ambos os lados estão esgotados, sem saber o que fazer, como agir e para onde ir. Não há luta maior do que a que travamos internamente e reduzir nossos conflitos a diferenças de gênero não dá conta da complexidade sócio-cultural em que vivemos.
Cada vez mais, conversando e atentando para o sexo oposto, percebo mais semelhanças do que diferenças. A maior delas? O desejo de descobrir o outro. Dizem que os desafios estimulam, e não há desafio maior do que transpor as dificuldades, culturalmente (e cuidadosamente) construídas ao longos dos últimos milênios, que separam homens e mulheres. Claro que, para algumas pessoas, desafios são intransponíveis, difíceis demais, e, como em qualquer área da vida, há quem desista. Basta olhar ao redor para identificar aqueles que desistiram de transpor barreiras para se acomodar à organização vigente.
Mas, continuo seguindo o conselho do meu amigo, e percebo que homens estão tão em busca de “algo” quanto mulheres. Buscam felicidade, aventura, amor, cuidado, prazer, companheirismo, conversas, compartilhamento de objetivos e propósitos. Não necessariamente nessa ordem, nem com igual intensidade, mas, para mim, grande parte dos homens cansou de prover e de sentir-se só nessa tarefa. Tão só quanto a mulher que cansou de ser a maior (mesmo não sendo a única) responsável pelas roupas, comida, compras do mercado, escola e médico de filhos. Não é mais o sucesso no trabalho que conta, mas o equilíbrio fora dele. O tempo de amar, de transar, de conversar, de manter os amigos.
Há um grupo de pessoas cujo propósito maior é o trabalho – os tais workaholics – ele não se divide em sexo masculino ou feminino, mas em áreas de interesse, crenças e valores. No lado oposto, há outro grupo, que se arrisca pela vida, priorizando experiências pessoais e buscando a emoção em tudo o que fazem, e este também não é exclusividade de um gênero só. E há tantos outros grupos em que mulheres e homens transitam com igual fluência, que “se for reparar direito, tem pouquinha diferença”.

domingo, agosto 22, 2010

O valor das relações

Mulheres de outras tribos
buscam valores
diferentes
Andei lendo alguns textos da antropóloga Mirian Goldenberg e fiquei às voltas com as questões que ela levanta sobre o valor da corpo, do cônjuge e da fidelidade. A pesquisa é ampla, foi publicada recentemente, mas algumas reflexões me dão vontade de gritar: “Para tudo! Quero o novo pra mim!” Não tenho certeza de como se constroem novos modelos de relacionamentos, na sociedade em que vivemos. Sou otimista, no entanto, e em meio a alguns sustos e tropeços, acredito possível um relacionamento que liberte, baseado na partilha e no amor, capaz de contribuir para a emersão de qualidades individuais reveladas pelo afeto de um pelo outro. Brinco com as amigas descrentes, mas sempre concluo: “Se acredito, assim será!”
Acho que precisarei de vários posts para falar o que me intriga nas pesquisas da Mirian e que, para mim, servem de sinal de alerta a me indicarem o caminho que não devo seguir. No blog Feminina Plural li sobre o valor do corpo. Certo que nós, cariocas, especialmente aquelas que vivemos à beira-mar, atribuímos valor diferenciado ao físico. Mas até que ponto esse valor pode sobrepujar outros que trazem satisfação duradoura e crescente? Acontece, e muito, no Brasil. Senão, por que outra razão as cirurgias plásticas se popularizariam a ponto de estarem acessíveis a todas as camadas sociais em até 24 vezes sem juros?
Quando estive na França, há três anos, hospedada numa espécie de pensão familiar, dirigida por pelo casal Jean e Sylvie, uma psicóloga que mantinha seus cabelos grisalhos, o motivo da banalização da plástica foi uma das perguntas que me fizeram. A psicóloga não conseguia entender o que poderia fazer uma mulher recorrer a uma alternativa de risco e invasiva para manter-se jovem. Isso causava tamanha estranheza àquela mulher de mais de 40 anos, que conduzia sua vida de forma simples, sem muito esforço: comida saudável, ida ao trabalho de bicicleta, muito estudo e leitura, vida familiar estável. Com tudo isso, não conseguira manter o corpo dos 20 anos, mas tinha elegância e estilo.
Para quem investe no corpo, não há muito o que fazer. Num país em que o valor desse “bem” é tão alto, vale-tudo para mantê-lo vistoso: remédios para emagrecer, tratamentos caros (parcelados a perder de vista), horas de ginástica, cirurgias etc. Mas isso é pouco, porque se esse valor supera os demais, a valorização e o reconhecimento de quem se é, de fato, ficam comprometidos. Sou um corpo? Então como posso envelhecer e começar a acumular, contra minha vontade, uma teimosa gordura abdominal? Sou um corpo? Então naturalmente serei trocada por outros corpos mais interessantes. Para os homens as questões são similares. Em relação a eles mesmos e a suas parceiras.
Diante desse quadro, faz sentido que a antropóloga tenha verificado em suas pesquisas que as mulheres mais gordinhas tendem a manter relacionamentos mais longos. Penso que essas mulheres e seus pares tenham descoberto outros valores que, certamente, fazem a diferença na hora de construção e manutenção de um relacionamento. O assunto não se esgota, mas, por ora, ponho-me a refletir naquele relacionamento que acredito possível: o corpo não será seu lastro, porque nada é tão transitório quanto ele que, ainda por cima, está inevitavelmente fadado à decadência. Mas tenho outros valores que estão em franca e poderosa expansão. Eles podem – e deverão - ser o lastro de meus novos relacionamentos: autoconfiança, conhecimento, algum humor e muita resiliência. A lista é maior e o investimento tem sido alto na aquisição desses valores, mas paro por aqui porque, em tempos de campanha política, isso poderia parecer mentira.

terça-feira, julho 06, 2010

Príncipes e princesas: quem são?


Vi ontem, sem poder fazer muita coisa, uma amiga com idade pra ser minha mãe chorar por causa de um namorado recém-arrumado que não responde há 15 dias às ligações telefônicas. Também ouvi as queixas de uma outra que há cinco anos mantém um casamento cujo pano de fundo é a total indiferença do marido e a consequente ausência de vida sexual. Em comum, ambas têm a falta de consciência de quem realmente são. Uma delas, inclusive, confessa que se acha horrível – embora seja uma mulher atraente – e desinteressante, incapaz de atrair o olhar de alguém.
Sei que as duas histórias replicam-se aos milhares no nosso universo feminino e isso me entristece. Até porque já fiz parte do grupo daquelas que não acreditam em si, do qual saí com muito esforço. Porque é tão difícil reconhecermo-nos como pessoas singulares com defeitos e inúmeras virtudes que podem atrair um sem número de pessoas, inserindo-nos em uma rede de amigos sinceros? Porque a maioria das mulheres acreditam, bem lá no fundo de si, que a felicidade virá com um gentil cavalheiro montado em um cavalo branco, como no filme “Uma Linda Mulher”? Eu também gostaria de ver Richard Gere, mesmo grisalho, com uma rosa vermelha aos meus pés, mas juro que não preciso dele nem de nenhum outro príncipe pra ser feliz.
A tristeza das minhas amigas, que é compartilhada por muito mais mulheres do que eu posso imaginar, é a razão da existência de um sem número de livros de auto-ajuda com títulos do tipo “Porque os homens amam as mulheres poderosas”, “Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor?”, “O que os homens dizem, o que as mulheres ouvem”, “O que os homens querem e as mulheres precisam saber”, que encontrei numa busca rápida numa loja virtual. Só que nenhum deles, por melhor que seja, responderá à questão mais básica: por que as mulheres não confiam em si mesmas? Por que acreditam, muitas vezes, que só serão felizes quando estiverem ao lado de seus príncipes, ou de algum substituto que o valha?
Longe de ser autoridade no assunto, acabei descobrindo, depois de 22 anos de relacionamento com o mesmo homem, que não há mágica maior do que a descoberta de si mesmo. Tenho amigas que desconfiam dessa afirmação e afirmam que uma boa conta bancária é suficiente para uma vida feliz. Mas eu nem levo isso à sério, porque essas, invariavelmente, deixam de pensar para se dizerem felizes e, quando começam a pensar, jamais recuperam o tempo perdido. Mas não há outro jeito. Estou convencida de que a busca de si é o que vai render a cada uma das mulheres (e aos homens também) a autoconfiança necessária para descobrir-se feliz, mesmo longe do príncipe (ou da princesa).
E tem mais: se o príncipe, por ventura, aparecer, a mulher que se reconhece como tal, independente da idade, do tipo de corpo, da conta bancária e da classe social, terá muito mais chance de desfrutar de um bom relacionamento. Sapo ou príncipe é uma questão de ponto de vista, acho eu. Do contrário, acabará como Gata Borralheira, vendo o seu príncipe procurar a felicidade ao lado de outras Cinderelas. Mas isso é assunto prum outro post.

sábado, fevereiro 27, 2010

O sagrado feminino em Anticristo

Há meses recomendaram-me que visse Anticristo, o último filme de Lars Von Triers. Lá fui eu. Vi até o fim, mas, ao final, fui tomada por uma raiva tão grande que eu não conseguia entender. Chorei de raiva e jurei pensar duas vezes antes de aceitar outra dessas dicas enfáticas de amigos. Com algum esforço, consegui dormir. O que aconteceu à noite eu não sei, mas ao final da minha corrida, no dia seguinte, peguei o filme e deixei na casa da minha vizinha, com mil recomendações para que não deixasse de assisti-lo.
O que mudou? Aceitei a raiva que sentia e compreendi que era uma raiva ancestral, natural e acumulada ao longo dos anos de subjugação de mulheres na nossa sociedade ainda patriarcal. Lembrei-me de que o amor é uma qualidade que transmuta tudo, inclusive a raiva, e tratei-a com o que tenho de melhor e mais amoroso em mim. Fui dormir pacificada. Mas o que mais me assombrou foram as conexões que fui capaz de fazer no dia seguinte, ainda sob o impacto do filme. Pensei no sofrimento de todas as pessoas que não conseguem entender quem realmente são. Eu mesma ainda estou em busca de mim e acho que essa busca é contínua e ininterrupta, mas aproximar-de de minha essência é o que me confere momentos de certeza e de liberdade.
Não vou escrever a história do filme, porque cada uma faz sua própria leitura a respeito de tudo que nos cerca, mas fiquei feliz, sobretudo, pelas percepções que tive a respeito de mim mesma. Historicamente frágil, descobri-me femininamente forte, como algumas das mulheres que me antecederam. E muito forte. Minha vontade, quando saí de casa hoje, era de dizer ao mundo: “dá licença que cheguei”. A pergunta que me fiz e que foi o meu argumento para que minha vizinha visse, também, o filme: que mulher sou eu? O diretor disse, em uma entrevista, que seu maior objetivo era levar o espectador a um lugar que ele não conhece. Comigo, aconteceu.
Todos buscamos a plenitude e compreender quem somos em nossa essência é um – senão o único - caminho para alcançá-la. Aceitar a natureza humana, com suas diferenças de gênero, sua sexualidade e seus desejos é integrar-se ao Universo e à natureza da forma mais ampla. Acho que nessa incompreensão reside a principal causa do desequilíbrio que experimentamos hoje em todo o Planeta. Mas, olha só, já tenho aqui um assunto para o próximo post: a ecologia do feminino.
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