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Mulheres de outras tribos
buscam valores diferentes |
Andei lendo alguns textos da antropóloga
Mirian Goldenberg e fiquei às voltas com as questões que ela levanta sobre o valor da corpo, do cônjuge e da fidelidade. A pesquisa é ampla, foi publicada recentemente, mas algumas reflexões me dão vontade de gritar: “Para tudo! Quero o novo pra mim!” Não tenho certeza de como se constroem novos modelos de relacionamentos, na sociedade em que vivemos. Sou otimista, no entanto, e em meio a alguns sustos e tropeços, acredito possível um relacionamento que liberte, baseado na partilha e no amor, capaz de contribuir para a emersão de qualidades individuais reveladas pelo afeto de um pelo outro. Brinco com as amigas descrentes, mas sempre concluo: “Se acredito, assim será!”
Acho que precisarei de vários posts para falar o que me intriga nas pesquisas da Mirian e que, para mim, servem de sinal de alerta a me indicarem o caminho que não devo seguir. No blog
Feminina Plural li sobre o valor do corpo. Certo que nós, cariocas, especialmente aquelas que vivemos à beira-mar, atribuímos valor diferenciado ao físico. Mas até que ponto esse valor pode sobrepujar outros que trazem satisfação duradoura e crescente? Acontece, e muito, no Brasil. Senão, por que outra razão as cirurgias plásticas se popularizariam a ponto de estarem acessíveis a todas as camadas sociais em até 24 vezes sem juros?
Quando estive na França, há três anos, hospedada numa espécie de pensão familiar, dirigida por pelo casal Jean e Sylvie, uma psicóloga que mantinha seus cabelos grisalhos, o motivo da banalização da plástica foi uma das perguntas que me fizeram. A psicóloga não conseguia entender o que poderia fazer uma mulher recorrer a uma alternativa de risco e invasiva para manter-se jovem. Isso causava tamanha estranheza àquela mulher de mais de 40 anos, que conduzia sua vida de forma simples, sem muito esforço: comida saudável, ida ao trabalho de bicicleta, muito estudo e leitura, vida familiar estável. Com tudo isso, não conseguira manter o corpo dos 20 anos, mas tinha elegância e estilo.
Para quem investe no corpo, não há muito o que fazer. Num país em que o valor desse “bem” é tão alto, vale-tudo para mantê-lo vistoso: remédios para emagrecer, tratamentos caros (parcelados a perder de vista), horas de ginástica, cirurgias etc. Mas isso é pouco, porque se esse valor supera os demais, a valorização e o reconhecimento de quem se é, de fato, ficam comprometidos. Sou um corpo? Então como posso envelhecer e começar a acumular, contra minha vontade, uma teimosa gordura abdominal? Sou um corpo? Então naturalmente serei trocada por outros corpos mais interessantes. Para os homens as questões são similares. Em relação a eles mesmos e a suas parceiras.
Diante desse quadro, faz sentido que a antropóloga tenha verificado em suas pesquisas que as mulheres mais gordinhas tendem a manter relacionamentos mais longos. Penso que essas mulheres e seus pares tenham descoberto outros valores que, certamente, fazem a diferença na hora de construção e manutenção de um relacionamento. O assunto não se esgota, mas, por ora, ponho-me a refletir naquele relacionamento que acredito possível: o corpo não será seu lastro, porque nada é tão transitório quanto ele que, ainda por cima, está inevitavelmente fadado à decadência. Mas tenho outros valores que estão em franca e poderosa expansão. Eles podem – e deverão - ser o lastro de meus novos relacionamentos: autoconfiança, conhecimento, algum humor e muita resiliência. A lista é maior e o investimento tem sido alto na aquisição desses valores, mas paro por aqui porque, em tempos de campanha política, isso poderia parecer mentira.