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domingo, abril 07, 2013

O Tigre e as Formigas


Acabei de ver As Aventuras de Pi. Filme lindo, cheio de efeitos belíssimos. Acabado o filme, fui à geladeira e me vi rodeada de formigas enormes. Devem aproveitar a madrugada para se espalharem pela casa. Imediatamente lembrei-me de Pi. Cada um cria um Tigre para se fazer acompanhar durante momentos da vida. Como se desenvolve a relação com esse “tigre”, é escolha pessoal de cada um, mas é fato que demanda tempo, atenção, energia, esforço e, sobretudo, ESPERANÇA. Essa me parece a grande força a mover Pi dia após dia.
E o que tem a ver tigres com formigas? É que insetos e pequenos problemas domésticos têm feito parte do meu dia a dia, de uma forma muito mais intensa do que jamais experimentei. Parece exagero, mas o somatório de pequenos eventos têm me tirado o sono, já que cuido de uma grande casa praticamento sozinha. Daí, quando vi as formigas, na madrugada, pensei no quanto nossa vida é semelhante à jornada de Pi. Há tempestades, ocorrências na vida de todos nós, mas nós é que damos a dimensão do que nos cerca. Posso ver minha formigas como inimigas, mais um problema ou como sinais e aliadas para me trazerem uma noção da vida mais plena.
Só quando o propósito é claro e firme, como a vontade de viver de Pi, pode-se escolher para as ocorrência da vida imagens que nos façam bem e nos tornem mais fortes ao longo da jornada, capazes de chegar aonde se deseja.
Em tempo: A medicina da FORMIGA é a estratégia da paciência. Construtora, agressiva e resistente, elas têm consciência de que sozinhas não são nada, mas, embora muito pequenas, junto com sua comunidade podem exercer força poderosíssima. É o sucesso por meio do esforço, aliado ao exame cuidadoso e à organização.

sábado, setembro 24, 2011

A Terra não para! Nem eu...

Unidade!
Incessantemente, nosso planeta realiza movimentos de rotação, girando em torno de si mesma ao redor de um eixo em intervalos de 24 h, e rotação, rodopiando ao redor do Sol, como parte do sistema solar como o conhecemos. Esse movimento também é contínuo por parte de outros elementos que compõem outros sistemas do Universo e que, cada vez mais, são observados pelos cientistas intervindo em nosso Sistema Solar. Mas nada abala a Terra, que segue com os seus movimentos, firme em seu eixo, pelo menos nos últimos sabe-se lá quantos milhões de anos.
Com uma força dessas a me governar, mantendo meus pés no chão todos os dias, pergunto-me como posso, ao contrário da Mãe Terra, perder o eixo, rodopiando, às vezes, sem noção de mim. Não sou inabalável como ela e, portanto, muito mais suscetível a diversos estímulos, que eventualmente chegam de todos os lados: alguns provocados por mim mesma e outros que aparecem, como os meteoros e novos planetas que invadem nosso espaço sideral. Quando isso acontece, perco o eixo de mim e me movimento confusamente pelo meu espaço, que é apenas um pequeno ponto neste imenso sistema universal. Às vezes, chego a me perguntar se meu descompasso afeta, de alguma forma, todo o resto, visto que somos todos um. Mas acho que não! O Universo, em sua perfeição, tem seus mecanismos de compensação. E eu também!
Nem a poderosa força da gravidade nos impede de perder o eixo de vez em quando, mas é justamente ela, representada por fatores mais objetivos e, energeticamente, pelo elemento TERRA, que nos faz recuperar o centro. Se não se pode, hoje, imaginar o Planeta sem seu eixo, eu tenho a certeza – e falo por mim – que não posso “funcionar” bem sem o meu. Só que o que deveria ser fácil e natural, exige atenção e esforço contínuos, visto que muito do que me cerca me desfoca. São escolhas, digo sempre; controlo os meus passos e as energias de que me aproximo. Isso deveria ser verdade, mas tenho meus momentos de pluma no vento e, muitas vezes, acontece de me deixar levar por brisas ou ventanias, perdendo o foco no essencial. É o maior desastre, para quem busca sempre maior consciência de si: de repente deixo de me ver. Nessa hora, busco meus espelhos, espalhados à minha volta, por uma energia superior, sob a forma de pessoas que passam por minha vida, mostrando sombras, luzes, imagens que me fazem recuperar o melhor de mim. A cada um deles, sou amorosamente grata! Todos me ajudam a reconhecer e a lidar com partes de mim, contribuindo para a retomada do meu eixo e de um caminhar – ou rodopiar? - mais equilibrado!

domingo, dezembro 19, 2010

A felicidade de compartilhar

Bull, um grande irmão que, junto com Bill, zela por
essa maravilhosa "aldeia"
Tem gente que diz que falo demais. Pode ser. Sou meio excessiva mesmo, vou fundo no que gosto: livros, trabalho, estudo, lazer, comida... Há sempre uma bola da vez para os meus excessos e uma contínua busca pelo equilíbrio, o caminho do meio. Mas há limites para compartilhar, abraçar, amar, sorrir? Acho que não. Por isso não me canso de dar e receber isso tudo, com o adendo de que cada troca me deixa com uma nova lição, um novo aprendizado.
Na Aldeia do Sol, um sítio voltado para vivências, cerimônias e práticas xamânicas, as trocas (e, consequentemente, os aprendizados) se dão em ritmo acelerado. É um “intensivão” evolutivo. Desde a minha primeira tenda do suor, há cerca de quatro anos, elegi esse lugar para recarregar as baterias e celebrar a vida. Cada vivência me traz muitas surpresas, novos aprendizados e, invariavelmente, retorno com o coração abastecido de amor. Nesse caso, acho que o excesso não faz mal nenhum.
Dessa vez, confesso que senti o coração apertar a caminho de casa. Sabia dos bons combates que me aguardavam e o desejo era ficar, cercada de amor, amigos, paz, canto dos pássaros, lua cheia, fogueira, boa comida, rezas e tambores. Imediatamente lembrei da passagem da bíblia em que, antes da crucificação, durante as últimas horas de liberdade de Jesus, um apóstolo pede para que fiquem acampados no monte, na tentativa de estender os sentimentos de segurança e paz. Lá estava eu querendo a mesma coisa, temendo perder a plenitude que tinha experimentado.
Cheguei em casa e abraçar meu filho mais novo já dissipou o aperto no coração. Havia muito amor para partilhar e senti toda a boa energia que recebi na aldeia tomar conta de mim novamente. Depois, liguei o computador para baixar as fotos e me conectei com alguns amigos de quem me despedira há algumas horas. E aquela energia foi ganhando mais força. Há sentimentos que aumentam quando repartidos, contrariando todas as lógicas. Então, digo mesmo, pra quem quiser ouvir, que estou feliz, conheço um lugar mágico e tenho amigos que me amam muito.
Me dei conta de que a maior mágica da aldeia somos nós, que, regularmente ou não, circulamos por lá! Não teria como contar, por exemplo, quantas horas de abraços (dados e recebidos) experimentei neste fim de semana. Nem quantas vezes senti meu coração vibrar em diferentes direções. Muito menos o poder dos insights que me economizarão muitas sessões de terapia. Aliás, me dei conta de uma coisa muito mais óbvia: de que sempre precisamos aprender (ou reaprender) algo muito simples, posto bem à vista, mas ignorado pela mente racional e “inteligente”. “O essencial é invisível aos olhos”, dizia o Pequeno Príncipe, e eu ainda me esqueço e caio na armadilha de acreditar que eles é que vão me conduzir ao conhecimento.
* Mais sobre o mesmo:
Nem dá tempo de comemorar a vitória - sobre uma vivência com um índio lakota, em maio/2010
Tenda do Suor - Uma breve explicação e alguns links

segunda-feira, outubro 04, 2010

O Silêncio dos Índios

Nós os índios conhecemos o silêncio.
Não temos medo dele.
Na verdade para nós ele é mais poderoso
do que as palavras.

Nossos ancestrais foram educados
nas maneiras do silêncio e eles
nos transmitiram essa sabedoria.
"Observa, escuta e logo atua" nos diziam.
Esta é a maneira correta de viver.

Observa os animais, para ver como cuidam de seus filhotes.
Observa os anciões, para ver como se comportam..
Observa o homem branco para ver o que querem.
Sempre observa primeiro com o coração e a mente quietos
e então aprenderás.

Quando tiveres observado o suficiente então poderás atuar.
Com os brancos é o contrário.
Vocês aprendem falando.
Dão prêmios às crianças que falam mais na escola.
Em suas festas todos tratam de falar.
No trabalho estão sempre tendo reuniões
nas quais todos interrompem a todos
e todos falam cinco dez cem vezes.
E chamam isso de "resolver um problema".
Talvez o silêncio seja duro demais a vocês
porque mostra um lado que não quereis ver.

Quando estão numa habitação e há silêncio ficam nervosos.
Precisam preencher o espaço com sons.
Então falam compulsivamente
mesmo antes de saber o que vão dizer.
Vocês gostam de discutir.
Nem sequer permitem que o outro termine uma frase.
Sempre interrompem.

Para nós isso é muito desrespeitoso
e muito estúpido inclusive.
Se começas a falar eu não vou te interromper.
Te escutarei.
Talvez deixe de escutar
se não gostar do que estás dizendo.
Mas não vou te interromper.

Quando terminares tomarei minha decisão
sobre o que disseste, mas não te direi se não
estou de acordo a menos que seja importante.
Do contrário simplesmente ficarei calado
e me afastarei.
Terás dito o que preciso saber.
Não há mais nada a dizer.

Mas isso não é suficiente para a maioria de vocês.
Deveríamos pensar nas palavras
como se fossem sementes.
Deveriam plantá-las e permiti-las crescer em silêncio.
Nossos ancestrais nos ensinaram que
a terra está sempre nos falando e que devemos ficar em silêncio para escutá-la.
Existem muitas vozes além das nossas.
Muitas vozes.
Só vamos escutá-las em silêncio.
"Não sofremos de falta de comunicação
mas ao contrário sofremos com todas as forças
que nos obrigam a nos exprimir
quando não temos grande coisa a dizer".

(Sabedoria indígena)
Fonte: http://pensandozen.blogspot.com/

domingo, agosto 08, 2010

Cultivando o “milho” na vida, segundo o Caminho Ancestral

Milho era alimento sagrado para os povos primitivos. Fonte de nutrição e, por isso, também símbolo de abundância, fertilidade e prosperidade. Por isso, resolvi usar minhas Cartas do Caminho Sagrado com a Sequência do Milho, uma forma de organizar as cartas tiradas desse “baralho” xamânico. Precisava me reconectar comigo nesse momento especial da minha vida em que preciso estar atenta aos lados espiritual e material, para, pela primeira vez, obter o “milho” por mim mesma. E o “milho”, aqui, significa a concretização das ideias, a realização dos meus potenciais, de forma que, qual a semente do milho, meus talentos possam frutificarem, alimentarem a mim e a outros, e multiplicarem-se. Não é uma missão fácil, mas cada vez mais possível. Tem exigido de mim muita coragem para, sobretudo, olhar a mim mesma.
http://wakanwood.blogspot.com/
Voltando às cartas, gosto dos ensinamentos das tradições ancestrais e resolvi compartilhar, com muito carinho, o que elas me trouxeram hoje. Afinal, se somos todos um, o que serve pra mim, com certeza servirá pra mais alguém! Portanto, segue a sequência, na ordem do pé de milho, com os respectivos significados e as mensagens que vieram pra mim.
* Raiz – Que recursos estão ao meu alcance para que eu possa frutificar, ou seja, resolver situações conflitantes e remover obstáculos ao meu desenvolvimento?
- Cachimbo (paz interior, oração) – A primeira carta das 44 desenvolvidas por Jamie Sams, fala do equilíbrio interno que pode ser resgatado através do reconhecimento da natureza divina de cada um. Ao fazer as pazes com as próprias dualidades, equilibrando o Ser Interior, perguntas como “o que eu sou” e “por que estou aqui” (missão pessoal) são respondidas. Ajudando a si mesmo, pode-se ajudar ao outro.
* Caule – A atitude necessária para caminhar em equilíbrio, que os índios chamam de “caminhar em beleza”.
- Grande espelho de fumaça (reflexos) – Convite a remover a “cortina de fumaça” que esconde quem realmente somos e encontrar a nossa verdadeira imagem. Nesse processo, é imprescindível aceitar o lado sombrio como fator de crescimento e companheiro inseparável do lado luminoso.
* Grão – Sementes do futuro. Frutos que virão com o trabalho, um ponto de apoio para as conquistas almejadas.
- Cesta de carga (autoconfiança) – Todos têm o direito à autoconfiança e as soluções internas para seus problemas; portanto, não podemos carregar o fardo de outros nem permitir que carreguem o nosso. Cada um pode dar conta de seu próprio fardo se acreditar em si, então compartilharemos soluções e respostas. (Essa é a carta que tenho mais dificuldade de assimilar. É a primeira vez que dou conta de meu próprio fardo e isso, por si só, rende outro post.)
* Maná – Propicia reflexão sobre a forma como recolher a abundância da vida, ensina como alinhar-se com o campo da fartura.
- Escudo do Sul (inocência, criança interior) – Sugere equilíbrio de trabalho com lazer, seriedade com humor, desapego para uma vida mais leve e feliz. “Quanto mais a sério você levar o jogo, menos chance terá de ganhá-lo!”, diz o livro. A vida está me dando essa oportunidade. Na verdade, acho que ela sempre deu, eu é que estou tendo a coragem de desfrutar agora.

domingo, abril 25, 2010

Por Relações Sustentáveis

Afetamos sobremaneira a vida dos outros e somos afetados por eles. Não importa o tipo de relação que estabelecemos com os que nos rodeiam: amigos, professores, alunos, subordinados, chefes, colegas de trabalho, cônjuges, namorados, vendedores de pipoca, funcionários de banco: todos têm impacto em nossa vida e são impactados por ela. A medida desse impacto é que caracterizará a relação. E eu já estou aqui pensando em um gráfico que analise qualidade e continuidade do impacto, criando uma matriz de relações. Muito técnico? Talvez. No entanto, penso, de fato, que enquanto não nos dermos conta das verdadeiras consequências de nossas relações, estaremos contribuindo para despejar mais lixo emocional num mundo que já está poluído em demasia.
E isso é muito palpável. Eu, por exemplo, ando preocupada com as guimbas de cigarro. Fumo muito esporadicamente e, quando essa vontade eventual acontece de vir num engarrafamento, jogo a ponta pela janela. Sinto-me mal e imediatamente fico pensando naquele filtro de cigarro somado a tantos outros, que juntos demorarão cerca de cinco anos pra se desfazerem. Na rua, já não jogo no chão, mas no carro ainda não encontrei uma solução, senão a de não fumar mais no trânsito.
O mesmo acontece com as nossas relações. Se deprecio o meu filho, posso estar contribuindo para criar nele sentimentos e crenças a respeito de si próprio que, às vezes, exigem muita terapia para serem eliminados. Se desrespeito a pessoa que me atende no mercado ou no banco, estou lançando sobre ela e sobre quem está à volta um sentimento de desamor – sob a forma de desrespeito, intolerância, arrogância, entre outros – que, somado a outras ondas de vibração igualmente ruim, poluem emocionalmente o mundo em que vivo. Exatamente como a pequena guimba de cigarro.
Nada de novo, se pensarmos que alguém, há muito tempo, começou a falar “Faça aos outros apenas o que gostaria que fizessem a ti”, o que se transformou em sabedoria popular. E quem deseja para si o que deseja ao outro? Há pouco tempo, um dos meus filhos me disse que achava esse ditado “furado”. “Quem faz isso, de verdade?”, perguntou. “Se estou em uma partida de tênis, quero que o meu adversário perca e não eu”, acrescentou. Tive que pensar para responder que o fato dele querer ganhar era bom, mas não implicava em desejar o mal ao oponente; bastava pensar em jogar o melhor possível, a ponto de conseguir ganhar o jogo. Também disse que pensar dessa forma não é fácil. Muitas vezes, todos nós, sem nos darmos conta, estamos desejando que aconteça algo de mal com o outro em nosso benefício. É questão de consciência e de prática, mas não de auto-punição. Porque esse é um longo aprendizado.
Como as guimbas de cigarro, que muitos fumantes automaticamente jogamos no chão, nossos pensamentos e ações negativas em direção ao outro também somam-se a muitos outros que partem de outras pessoas, criando o lixo emocional que reveste o planeta. E o contrário também acontece. Toda vez que amamos alguém, sem demandar um retorno na mesma medida, simplesmente por amar, geramos um sentimento que se une a outros de igual sintonia criando uma força capaz de neutralizar um pouco desse lixo a que me refiro. É assim quando somos gentis, atenciosos e solidários, num movimento contínuo, vivo, que exige nossa atenção e presença constantes
Sacolas plásticas e latas de alumínio não são os únicos elementos recicláveis do Planeta. As emoções também são. Todas podem ser transformadas, recicladas. E há muita gente fazendo isso. Vejo pessoas que perdem seus filhos, fazendo de sua dor a propulsora de ações amorosas; outras que aprenderam a pedir desculpas para reparar erros cometidos; ou ainda aquelas que desenvolveram tolerância para não revidar com xingamentos e mau humor as atitudes corriqueiras do trânsito ou de atendentes de telemarketing. E por aí seguimos numa lista infindável.
Proponho, então, uma análise do impacto das relações. De todas. O objetivo é sempre eliminar e minimizar o potencial negativo da cada uma delas, evitando o “envenenamento” do meio emocional em que vivemos. E como falamos a partir de uma perspectiva individual, podemos ter a certeza de que, em todos os casos, no positivo e no negativo, seremos os primeiros a sentir os efeitos de nossas ações. Ainda que não percebamos. Por isso, cada vez mais, entendo os irmãos indígenas que pronunciam, na linguagem lakota, uma forma de saudação, Aho Mitakuye Oyasin, que significa “por todas as minhas relações”. Eles acreditam que nossa vida é determinada pelas relações que estabelecemos com os demais seres. Eu também!

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Em sintonia com as mulheres do mundo e de todos os tempos

Círculo da Lua Nova é o nome do grupo do qual fui convidada a participar no domingo à noite. No céu, uma lua linda completava o cenário composto por uma fogueira cuidadosamente alimentada e pela mata exuberante do Alto da Boa Vista. Eram cerca de 30 mulheres entre 3 e 70 anos, entre elas eu, cheia de muitas expectativas por nunca ter participado de algo semelhante.
Foram rituais muito simples de agradecimento ao Universo Criador, de dança, de compartilhar de histórias e energias, que duraram mais de quatro horas. Predominavam as práticas de origem xamânicas, mas havia também uma pitada de outras tradições, como a céltica. Participei de tudo, mas minhas expectativas atrapalharam, devo confessar. Esperava algo semelhante ao que vi em filmes e histórias sobre o que acontecem quando mulheres e bruxas reúnem-se. Saí até um pouco frustrada.
O que me deixou curiosa, no entanto, foi uma estranha irritação que sentia. E uma certeza das coisas da vida, que também não sabia explicar. Naquela noite, estava muito receptiva às mensagens do Universo, mas eu não sabia. Só descobri no dia seguinte, quando acordei como se estivesse de ressaca. A energia das mulheres é transformadora e chegou a mim, além e apesar das minhas expectativas fantasiosas.
Já venho experimentando, há alguns meses, a percepção dessa energia amorosa que une as mulheres do mundo de todas as gerações. Como acredito em sincronicidade, esse foi mais um passo do processo, vindo num convite ocasional e reforçado pelo comentário de um amigo. O fato é que, desde esse dia, sinto um poder que faria inveja a qualquer heroína de filme. E tenho certeza de que ele não é exclusividade minha, mas pertence a todas as mulheres. A reunião em grupos, como o Círculo da Lua Nova, ajuda-nos a lembrar quem somos. E mais, faz com que a soma de todas as energias despertem e fortaleçam aquela que já temos em nós.
Sincronicamente, resolvi acatar uma recomendação no dia seguinte: vi o filme Anticristo, de Lars Von Triers. Posso me apresentar a você, hoje, como uma nova mulher. Mas, sobre o filme, conto no próximo post.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Bem-vindas borboletas!

Adorava casulos quando pequena. Pelo menos depois que entendi que aquela coisa feia eram as próprias lagartas que eu via andarem pelo quintal, consumindo as plantas de minha mãe. Meu sonho era poder ver o exato momento em que a borboleta vai abrindo suas asas, para deixar o casulo, mas o máximo que consegui foi ver uma delas secando suas asas antes do primeiro voo. A palavra mágica, a gente aprende ainda nos primeiros anos de escola: metamorfose, que significa mudança de forma e estrutura. No dicionário diz que acontece com batráquios e insetos. Em música famosa, Raul Seixas dizia que acontece com gente.
E o cantor parecia ter razão. Muito antes dele, algumas tribos indígenas que viam relação estreita entre os momentos da vida humana e os animais de toda sorte elegeram a borboleta como símbolo da transformação. Mas não é só. Para os nossos ancestrais, além de representar os ciclos da vida, movimento e mudança; a borboleta também trazia clareza mental, leveza e liberdade. É muita coisa prum inseto que vive tão pouco. Mas faz muito sentido se pensarmos que esse pequeno inseto, outrora lagarta, sai corajosamente da segurança de seu casulo e espera o tempo necessário até suas asas estarem prontas para o primeiro voo, ainda um pouco inseguro.
Voltando aos ancestrais e sua crença na força de todos os seres vivos, muitos acreditavam que os animais (ou sua energia) aproximavam-se de acordo com o ciclo da vida e a necessidade do humano. Para eles, as borboletas tornavam-se grandes companheiras quando alguém não conseguia mover-se e evoluir, normalmente por medo.
Estudiosos da psique, incluindo Jung, apropriaram-se desse simbolismo para descrever diferentes fases da nossa evolução. Quanto a mim, a exemplo dos meus ancestrais, acredito que as borboletas aproximam-se para lembrar-nos de que mudanças e progressos fazem parte de um caminho natural. Mais que a força para mudança, a energia das borboletas traz a leveza que pode acompanhar o processo, ainda que ele seja tão radical quanto a transoformaçao de um inseto rastejante em um alado. Seus voos são belos e graciosos e sem nenhuma ideia de sofrimento.
As borboletas sempre estiveram presentes em minha vida, tanto que, há mais de 20 anos, tenho por companheira uma espécie muito comum na Mata Atlântica, com lindas asas azuis. Elas me aparecem sempre em momentos muitos especiais... Então, que venham as borboletas!

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Tenda do Suor


Não posso falar do xamanismo com muito conhecimento de causa, mas escrevo com amor pela causa, pois, toda vez que experimento um pouco daquilo que nossos ancestrais assumiam como verdade para suas vidas, entro em contato com a grande energia amorosa que envolve todos os seres da Terra. E foi assim, ontem, ao participar de uma tenda do suor conduzida pelo xamã carioca Carlos Sauer. Como muitos amigos fazem perguntas, resolvi escrever a respeito.
Dizem que, no passado, as mulheres isolavam-se, no período menstrual, na Tenda da Lua, onde rezavam e ensinavam umas às outras, compartilhando suas intuições e conhecimentos e honrando seus dons. Os guerreiros reuniam-se em algo equivalente, que se chamava Tenda do Suor. Com a perda da tradição da tenda feminina, em algum momento, a Sweat Lodge passou a ser adotada como ritual de purificação de mente-corpo-espírito por ambos os sexos.
Nos links e na internet, há farta explicação sobre o que é a tenda, hoje, e de como esse ritual é conduzido. Então, escrevo sobre a minha experiência, pois, para mim, cada tenda é única e cheia de surpresas. Nunca sei o que acontecerá e como sairei depois de suar. Essa última do ano foi especial e cheia de significados. A começar pela escolha do condutor em trabalhar a energia feminina. Foi uma tenda muito suave, onde pude sentir, mais uma vez, energia acolhedora da Mãe Terra.
Desde o momento em que recebi o tabaco para saudar o fogo, senti, no meu ventre, a força da fertilidade e da criatividade feminina, que resgataram dentro de mim a perplexidade que tenho diante do milagre da concepção humana. O sentimento ajudou-me a reintegrar minha condição de mãe e de filha, agradecendo ao Universo os meus dons e a minha capacidade de procriar. Parece engraçado uma mãe de três filhos falar de procriação, mas foi essa a energia que senti muito forte nas primeiras rodadas, como se chamam as sessões de recebimento das pedras que aquecem a tenda. As rodadas assemelham-se a portais, tradicionalmente em número de quatro, segundo os quatro pontos cardeais.
No oeste, propício para trabalhar os medos e as sombras, tive uma visão que se assemelhava a um grande presente do Universo e o aviso de que é preciso desapegar do passado para viver o presente, com todos os significados que essa palavra carrega. Aquilo que chamam, em muitas culturas, de dar lugar ao novo ou de praticar o desapego. Os mestres e guardiões fizeram o seu trabalho, pois renovar-se e renascer exige um desprendimento que nem sempre nos permitimos. Ninguém caminha conservando amarras do passado, mas poucos têm coragem de desfazer os laços dessas amarras.
Com a limpeza feita, senti-me acolhida pela sabedoria de meus antepassados no Norte, pronta para renascer ao sair da tenda, que é a representação do útero feminino, no seio da Mãe Terra. Saí das quatro rodadas sentindo-me a mais abençoada das mulheres. Mas havia mais. Há sempre prêmios para a persistência... Como o grupo era muito grande, haveria mais três rodadas, para possibilitar a participação dos demais. Eu estava muito bem, suave, como já disse, e continuei.
A primeira das rodadas que se seguiram fortaleceu a conexão com o Grande Espírito e possibilitou-me grande esvaziamento da mente e relaxamento, lembrando-me do que a entrega ao fluxo da vida e o desapego a valores que não fazem parte da minha essência podem proporcionar. Em seguida, a Mãe Terra foi o foco e seu acolhimento a mim foi tão intenso que eu cochilei em seus braços, numa viagem de cura. Depois, numa última rodada, foi a vez do coração e das emoções que ele encerra, num convite a reconectá-lo ao coração da Mãe Terra. Assim, saí da tenda muito mais fortalecida e pronta para o novo ano que vem por aí.
Para 2010, convido os amigos a compartilharem dessa experiência comigo.
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