quarta-feira, abril 02, 2014

A felicidade cotidiana

Não passou muito tempo desde o dia em que fiz escolhas que mudaram radicalmente a minha vida. Há quem ainda me cobre explicações ou me recrimine. E todas essas pessoas têm razão. Até pra mim, às vezes, é difícil entender este caminho em que me meti. Mas há momentos, e muitos deles, em que sinto-me em paz e feliz. Abri mão de muitas coisas, entre elas o conforto de poder contar com pessoas que cuidavam da minha casa e da minha família há muitos anos. A minha vida ficou mais dura, mesmo. Casa grande, filhos, trabalho e todas as funções domésticas pra cuidar. Pra mim não é fácil. Nunca foi. Desde pequena, fui acostumada a sentar à mesa já posta e nem sei se retirava a louça. Por isso, momentos muito simples ganharam status de festa. E eu adoro!
Hoje foi um desses dias. Sinto-me muito feliz e abençoada. Preparei almoço e janta pra mim e pros filhos. Nada de especial, mas, com a correria diária, um peixe fresco frito no almoço, com arroz, feijão, salada e suco de acerola colhida no quintal viram um banquete. E quando consigo que sentem à mesa, desligo a televisão (às vezes, brigo pra isso, é verdade!) e conversamos sobre qualquer coisa. Para mim, é uma epifania! Na janta, um frango cozido com cenoura, me deixou nostálgica. Foi um dos pratos que aprendi a preparar quando casei por ser bom de congelar! Só tinha um filho à mesa, e justamente o de paladar mais exigente. Repetiu o prato enquanto conversávamos. Felicidade deve ser o nome do que sinto agora!

Claro que adoro conforto e tudo o mais que a vida tem de bom! Não sou louca! Mas o meu momento agora é esse. E em tudo, realmente, há algo de maravilhoso. Descobrir o prazer de cozinhar, preparar a comida da minha família, sentar à mesa para conversar sobre assuntos cotidianos e dividir tarefas (ainda que seja muito na marra!) é uma dádiva que recebi. Há beleza em tudo na vida! Até numa pia cheia de louça suja! :)

quinta-feira, março 06, 2014

O tempo de aprender a amar

Nascer do sol em Tongariki, Rapa Nui
Quarta-feira de cinzas se foi. A despeito dos desejos e ideias que possamos ter do que vem antes e depois desse dia, há algo a ser começado. Eu já não faço contas de quantas vezes começo e recomeço desde que me dei conta de que tudo tem um ciclo de vida. Há algo novo para acontecer todos os dias. É um movimento tão natural que eu sou forçada a me indagar acerca da resistência. De onde ela vem? Por que, às vezes, é tão difícil soltar? Por que me imputo o sofrimento do desejo da permanência em um mundo visivelmente impermanente? E aí lembro de uma frase de botequim: “se não acabou é porque não chegou ao fim”.
Parece engraçado, mas se há uma situação, qualquer que seja, que não consigo deixar para trás é porque ainda há vínculos, quaisquer que sejam, a ser desfeitos. Faria diferente se soubesse como e se não o faço é porque ainda preciso aprender algo com a situação que retenho. Também me pergunto porque não escolho abreviar meu tempo de aprendizado, já que poderia perceber mais rapidamente o processo a vivenciar e simplesmente seguir, com mais leveza. Mas e se a leveza, por si, ainda é uma lição a aprender?
Tudo é cíclico, e a minha vida não é diferente das demais. Percebo que o sofrimento pode ser ampliado, não pelo processo que ainda experimento, mas pela não-aceitação do meu próprio tempo de aprender. Julgo-me tanto e encho-me de expectativas a meu respeito, que deixo de me conceder o lenitivo do amor e da aceitação de mim. Amor não por quem eu pareço ou gostaria de ser, mas pelo conjunto do que sou no presente, em essência, com máscaras e sem elas, com resistências e aprendizados mais lentos, com avanços e aprendizados mais rápidos. Entender que faço escolhas a partir do menu que consigo ver, pode me ajudar a ser mais complacente comigo.
Sim, posso ampliar a visão sempre, enxergar novos menus, ousar novas escolhas, mas há um tempo que é meu, o meu tempo de aprender. E, nesta quarta-feira de cinzas, que simbolicamente em minha cultura é um renascer, me declaro amor incondicional, de uma forma mais profunda que experimentei antes. Amo incondicionalmente o ser que sou e, ao declarar isso, já me surgem vários julgamentos sobre quem sou e sinto-me tentada a fazer-me uma promessa já que não fiz nenhuma de muito peso para 2014: Prometo ao ser que sou não julgar-me mais. Não há espaço para julgamentos onde há amor e aceitação!
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